ZÉ DE TUDA, HISTÓRIA E SABEDORIA


    Emergindo do tempo como um monumento vivo, José Libânio Dantas, conhecido como Zé de Tuda, alcança os 90 anos e 8 meses de vida num estado de notável vigor e lucidez. 

    A sua existência, sediada em Acari, Rio Grande do Norte, desafia as convenções da idade. Com uma autonomia surpreendente, relata manter uma rotina que inclui deslocar-se de bicicleta para as compras e ascender a serra, sozinho, em busca de "embu". 

    A sua memória, cristalina, serve de arquivo para detalhes precisos, como a data e hora do seu nascimento: "Nasci aqui dentro de Acari em 1934, dia primeiro de janeiro, no dia de domingo, às 4 horas da madrugada".

    Este prodígio de longevidade, ele atribui a um código de conduta rigoroso, herdado de um homem ainda mais velho: "Você trabalhe, se alimente bem, durma cedo, acorde cedo, não fume, não beba e não teime com ninguém". 

    A este regime, soma a sua fé na Emulsão de Scott, um preparado que, segundo ele, foi crucial para recuperar a sua saúde tanto na infância como recentemente.

    A infância de Zé de Tuda foi forjada nas dificuldades. Órfão de mãe aos dois anos e abandonado pela figura paterna, foi acolhido pelos avós na zona rural. Desde tenra idade, a necessidade impôs-se: tornou-se "puxador de boi com seis anos de idade para ganhar uns trocadinhos por dia". 

    Aos 16 anos, impelido por um desejo incipiente de "conhecer o mundo", demonstrou a sua independência ao deixar Acari, rumando a Caicó em busca de melhores horizontes. Esta partida marcou o início de uma vida de constante adaptação e persistência, que o levaria a inúmeras cidades e ofícios.

    Movido por uma "vontade de conhecer o mundo", Zé de Tuda lançou-se em viagens a lugares desconhecidos, sem roteiro prévio. A sua trajetória profissional é um mosaico de habilidades: foi caminhoneiro, carpinteiro (a sua principal profissão), ferreiro e até "enfermeiro parteiro". 

    A sua polivalência foi reconhecida, levando o entrevistador Júnior Buriti do 'BotijaCast' a afirmar: "O senhor é um dos homens de Acari que aprendeu mais profissões diferente". 

    O seu engenho prático era notável, fosse ao corrigir o projeto de uma pista de aviação ou ao dominar a carpintaria de forma autodidata e inovadora.

    A narrativa de sua vida ganha contornos místicos nas histórias das "botijas" (tesouros enterrados). Zé de Tuda relata ter encontrado duas. A primeira, revelada através de um sonho de sua esposa, continha "prata e ouro e o gasto de ouro e uma leiteirazinha de ouro". A segunda, descoberta após a morte de um ferreiro que ele suspeitava ter dinheiro oculto, revelou "800 conto naquele tempo", uma soma considerável em notas de 10.000. 

    Ele narra essas experiências com destemor, inclusive o confronto com uma aparição durante a primeira escavação. As moedas antigas encontradas eram de grande valor, incluindo exemplares do Brasil pré-descoberta e cunhagens da Princesa Isabel e de Vitória de Portugal.

    Interessado pelo imaterial, Zé de Tuda descreve-se como alguém que "estudou espírito", dedicando-se a leituras sobre espiritualidade, incluindo o "Livro de São Cipriano". Contudo, para ele, a sabedoria suprema provém da vivência: "quem anda no mundo sabe mais do que quem lê muito". 

    A sua honestidade é um pilar moral: "eu nunca joguei, nunca bebi, nunca rapariguei... nunca matei nem roubei nem dei e nem apanhei". Revela ainda uma idiossincrasia, uma profunda aversão a carne, adquirida após uma experiência desagradável num açougue.

    Em 1974, uma convocação do exército levou-o a uma missão singular no Pico da Neblina: "domesticar índio lá", um eufemismo para ensinar os indígenas a trabalhar e a adaptar-se a novas normas. Após um curso para aprender a língua nativa, tornou-se o encarregado geral da missão, granjeando o respeito das tribos. "Eu trazia as índias... tudo me sentava no chão com eles conversando". Ensinava carpintaria e alfabetização, mas as extensas horas de labor, sem a remuneração devida, levaram-no a abandonar o posto.

    O arco trágico de sua vida deu-se em Pernambuco. Durante uma viagem com a família rumo ao Mato Grosso, onde montaria uma oficina, um grave acidente ceifou a vida de sua primeira esposa e de um dos filhos. Ambos, ele e a esposa, foram "desenganados" pelos médicos, mas Zé de Tuda sobreviveu. Viúvo e com cinco filhos para criar, demonstrou a sua resiliência ao contrair novo matrimônio seis meses depois. A sua segunda esposa, então com 18 anos, ajudou a criar os enteados, e juntos tiveram mais sete filhos.

    O seu faro para negócios revelou-se no comércio de café em grão, numa época em que a atividade era proibida, sendo permitida apenas a venda do produto torrado por moedores autorizados. "Foi proibido", confirma ele. Desafiando a lei, comprava os sacos por um valor e os revendia pelo dobro. Acumulou 60 sacos, e a sua fama de "traficante de café"  atraiu compradores de Campina Grande. Essa atividade ilícita, comparada a "uma droga", gerou-lhe uma fortuna significativa, que transportava em dinheiro vivo.

    A trajetória de José Libânio Dantas, registrada e detalhada pelo 'Botija Cast' através de Francisco Júnior e Josenildo Dantas, é um testemunho de uma vida que se confunde com a própria história de Acari. Mais do que um homem de idade avançada, Zé de Tuda é um repositório de saberes práticos, um protagonista de peripécias que mesclam o real e o místico, e um exemplo de superação diante das mais duras adversidades. A sua lucidez e as suas narrativas constituem um tesouro para a memória coletiva da região.

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