NATÉRCIA GALVÃO



A insigne professora Natércia Galvão, que honrou a municipalidade de Acari ao exercer o cargo de Secretária de Educação entre 1985 e 1989, formou-se na tradicional Escola Doméstica de Natal, instituição exclusivamente feminina e reconhecida pela excelência acadêmica e pela sólida formação de caráter. 

Filha de José Braz de Albuquerque Galvão, descendente direto das famílias 'Albuquerque Pires Galvão' e 'Bezerra de Araújo Galvão', Natércia traz na própria ascendência o peso histórico de ascendentes que moldaram, ao longo de gerações, a vida política, econômica e cultural do Seridó.

Como já assinalado, Natércia foi aluna da Escola Doméstica, cuja organização impecável se refletia também na imponência arquitetônica, uma grande casa branca em estilo colonial, sóbria e elegante, que acolhia jovens moças vindas de várias partes do Rio Grande do Norte e de Estados vizinhos. 

O processo pedagógico transcendia o currículo comum, incorporando práticas voltadas à administração do lar tais como culinária, costura, etiqueta, cuidados com crianças, organização de eventos e bons modos, sem jamais descuidar da formação intelectual. O quadro docente, de excelência, preparava as alunas inclusive para o vestibular, e houve tempos de convênio formal com a recém-criada UFRN.

A rotina escolar exigia rigor na entrada, realizava-se inspeção de limpeza do uniforme, verificação da altura da saia do vestido branco, conferência dos sapatos e meias igualmente brancos, dos cabelos bem arrumados, da posição correta da faixa na cintura e até da cor da lingerie, que deveria ser branca ou cor da pele. A instituição funcionava como um verdadeiro “quartel chique para moças”.

As alunas internas, entre as quais se encontrava Natércia, viviam intensamente aquele ambiente disciplinado e criativo. Lembrava-se com encanto das aulas regulares do currículo comum e, sobretudo, das práticas de culinária e costura. Nesses dias, trajavam avental e touca, e a cozinha industrial, ampla e moderna, exercia irresistível fascínio. 

A primeira aula de Natércia naquele recinto foi dedicada à feitura de licores, experiência marcante que se somava às brincadeiras entre as colegas, como o costume de esconder-se sob a mesa da sala de banquetes, atrás das longas toalhas brancas.

As aulas de costura, embora mais complexas, igualmente atraíam sua atenção, pois envolviam cálculos, uso de fita métrica, moldes de papel madeira, tipos diversos de linhas, zíperes e botões, segredos que, em boa parte, ela já trazia de casa. 

O vestido de crepe bege, peça central dos estudos, acabou concluído com esmero. A metodologia da Escola, ao mesmo tempo rigorosa e cativante, marcou profundamente Natércia, que ainda tentou integrar a fanfarra, atraída pelo brilho daquele grupo de jovens disciplinadas e talentosas. Ficaram, sobretudo, as amizades duradouras e as memórias afetivas de anos de vivências criativas.

A filiação de Natércia constitui elemento essencial para a compreensão de sua trajetória, uma vez que o ramo paterno, assim como o materno, moldou a história social e política do Seridó. 

Entrementes, pela via paterna, ela descende de Francisco Braz de Albuquerque e Isabel Bezerra de Araújo (a conhecida Biluca). É bisneta de Sérvulo Pires de Albuquerque Galvão e Josefa Bezerra, irmã de Cipriano Bezerra Santa Rosa; e, ainda, bisneta — pelo lado da avó paterna — do Coronel José Bezerra da Aba da Serra e de Antônia Bertina de Araújo, filha de João Damasceno Pereira de Araújo e Teresa Alexandrina de Jesus. 

Seu pai, José Braz de Albuquerque Galvão, nasceu em 12 de novembro de 1896, na Fazenda Aba da Serra, então pertencente ao termo de Currais Novos. Portador de deficiência visual congênita, apenas “assistiu” ao curso primário, educando-se sobretudo no convívio diário com a terra. Tornou-se profundo conhecedor do trato com o gado, do cultivo do algodão mocó, principal lavoura-dinheiro da região por décadas, e da dinâmica natural do semiárido.

Pioneiro na introdução da raça Brown Swiss no Seridó, destacou-se pela criação de reprodutores destinados à mestiçagem com raças indianas, mais adaptadas ao clima áspero da caatinga. Empregava técnicas cuidadosas, como a estabulação nas horas de maior insolação, transformando-se em referência regional em manejo leiteiro.

Naturalista por vocação, evocava um Louis Bromfield da caatinga. Sabia de cor histórias antigas, genealogias familiares, propriedades do solo, hábitos da fauna, ciclos das plantas.

Suas conversas, no alpendre da Fazenda Talhado, tornaram-se célebres por seu caráter didático e poético.

Figura disciplinada, era ouvinte cativo de A Voz do Brasil, noticiário estatal criado em 1935 e até hoje o mais antigo em execução contínua no hemisfério sul. Acompanhava-o diariamente, transformando-o em ritual de atualização e interesse público.

A pedido do sertanista Oswaldo Lamartine de Faria, registrou observações sobre as forrageiras nativas do Seridó, publicadas na revista Seleções Agrícolas (Rio de Janeiro), entre setembro e novembro de 1960.

Estudou em Acari com o mestre Tomás Sebastião e, em Natal, com o professor Ivo Cavalcante, sendo colega de João Café Filho, futuro presidente da República. Embora sem formação universitária, tornou-se respeitado por agrônomos e veterinários, graças à prática cotidiana e à inteligência intuitiva.

Em 28 de novembro de 1918, casou-se com Cantídia Auda Pires (1902–1966). Por essa linha materna, Natércia é neta de João Alfredo Pires Galvão (1873–1937), ex-prefeito de Currais Novos, e de Cecília Celestina de Oliveira (1879–1970), além de descendente de Manoel Pires Galvão e Francisca Bezerra Pires Galvão.

O casal estabeleceu-se nas fazendas Acauã e Talhado, em Acari. No entanto, em 1969, já viúvo, ele passou de vez para a 'casa da rua', deixando as terras aos cuidados do filho Adalberto, irmão de Natércia. Lá, preservou sua rotina espartana: café às seis, almoço às dez, jantar às catorze e ceia às dezenove. José Braz tinha ainda a peculiaridade de conservar os relógios no horário de verão, visando o máximo aproveitamento da luz do dia.

Dos vinte e um filhos do casal, sobreviveram apenas oito, todos eles figuras destacadas na vida social e comunitária: José Braz Filho, fazendeiro e ex-prefeito; Adalberto Braz de Albuquerque Galvão, fazendeiro e pai de Gustavo Braz; Eleonora Maria Galvão de Albuquerque, assistente social; Maria de Lourdes Galvão da Nóbrega, funcionária pública; Cantídia Galvão, economista; Francisco Braz Neto, o Chiquinho; João Braz de Albuquerque Galvão, o agrônomo Joca Braz; e a professora Natércia, cuja carreira pública reflete com brilho o legado paterno.

Na vida política, José Braz foi vereador, delegado de partido, chefe político e vice-presidente da Câmara Municipal, exercendo papel de liderança dentro do modelo tradicional do coronelismo sertanejo.

Faleceu aos 86 anos, em 28 de março de 1983, na Policlínica do Alecrim, sendo trasladado para Acari, conforme seu desejo. A memória do patriarca preserva-se como símbolo de sabedoria, austeridade e compromisso comunitário.

Em 1999, Simone Albuquerque, sobrinha de Natércia, organizou uma visita à antiga Fazenda Talhado, já administrada por Natércia, reunindo familiares e pesquisadores em homenagem ao patriarca. O percurso incluía a casa do gerente Manoel Aprígio, com suas paredes espessas e quartos largos; o armazém onde funcionara o beneficiamento de algodão, movido por motor inglês a vapor; e o sobrado ainda ornado com móveis coloniais, quadros antigos, louças de porcelana e talheres pesados.

A alcova de José Braz permanecia como um relicário; o sótão guardava uma biblioteca singular, que reunia autores nacionais e estrangeiros, de José de Alencar a Dale Carnegie. Nas paredes, discretos orifícios para rifles “papo-amarelo” recordavam os tempos de alerta contra cangaceiros, bandoleiros, comunistas e os temores da Intentona de 1935.

A trajetória de José Braz de Albuquerque Galvão transcende a biografia individual expressa a própria formação social do Seridó, a dignidade do homem da terra, a força das tradições e a permanência da memória. 

Esse legado, enfim, encontra continuidade viva na figura de sua filha Natércia Galvão, cuja vida dedicada à educação e à administração pública honra com fidelidade e brilho a memória de seu ilustre pai.

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