ANACLEONTE PEREIRA DE ARAÚJO (1932-2010)

 Filho de João Batista de Araújo e de Salvina Francelina de Araújo, nasceu em 12 de abril de 1932 e faleceu em 13 de dezembro de 2010, aos 78 anos.

Conviveu em nosso meio até o momento em que a Providência Divina determinou o cumprimento de sua missão terrena. 


Homem de alma simples e pura, transitou no tênue limiar entre a fantasia e a realidade, consolidando-se como um figurante típico e imprescindível ao folclore e à antropologia cultural do município cruzentense. 

As reminiscências da infância trazem à tona a imagem de um Anacreonte que perambulava apressado pelas ruas da cidade. Em suas divagações, fazia constante apologia ao caminhão Ford 29, misturando o fascínio mecânico às suas idiossincrasias. 

Nesse passo, a rotina era frequentemente quebrada pela interação popular, por vezes impiedosa. Diante da provocação do "purrute", ruído produzido pela expulsão de ar comprimido pelos lábios, Anacreonte reagia com esturros de indignação e vocábulos afrontosos, numa resposta instintiva e natural à afronta recebida.

Com o passar dos anos, talvez por um imperativo de cautela pessoal e autopreservação contra o humor corrosivo de seus algozes, Anacreonte optou pelo isolamento, tornando-se uma espécie de eremita na periferia da cidade. 

O afastamento do convívio social paradoxalmente aguçou-lhe o intelecto para a admoestação da memória. Longe dos ruídos do presente, seu cérebro especializou-se em resgatar recordações pormenorizadas, datas e fatos de um passado longínquo, dos quais foi testemunha ocular ou partícipe.

A existência de Anacreonte ilustra com precisão o conceito de Câmara Cascudo sobre a cultura, a tradição, o milênio na atualidade e o heroico no cotidiano. Cada indivíduo nasce com um propósito, e Anacreonte foi dotado de uma programação existencial singular. 

Sua capacidade de reter impulsos e processar o mundo, sem os filtros das convenções sociais expressando-se através de "sins" e "nãos" absolutos, revela a complexidade da formação humana, desde as primeiras impressões sensoriais no berço até a consolidação do caráter.

Enquanto a maioria percorre o caminho do racionalismo concreto, alguns, como ele, habitam o universo das ideias oníricas. A sua jornada evoca a parábola bíblica narrada por Cristo sobre o homem rico e o mendigo Lázaro. 

A lição que transcende os séculos nos ensina que o destino espiritual a travessia para o "Mundo Paralelo" e depende fundamentalmente da qualidade de nossas interações interpessoais. 

A verdadeira avaliação da vida reside no tratamento dispensado a todos, não apenas aos afortunados ou entes queridos, mas, sobretudo, aos "excepcionais", que carecem de dignidade e inclusão.

Na parábola, o pobre Lázaro foi acolhido no seio de Abraão não apenas por sua carência material, mas pela pureza de seu coração e pelas circunstâncias de sua vida. 

Da mesma forma, Anacreonte, com suas atitudes destituídas de segundas intenções e sua ingenuidade intrínseca, cumpriu seu papel histórico e humano, deixando-nos uma perene reflexão sobre a pureza, a tolerância e a essência da alma humana


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