IGNEZ SEGUNDA MARÇAL, A FILHA DE BASÍLIO FERREIRA DOS GARROTES

 

 

Ignez Segunda Marçal nasceu em Cruzeta, no ano de 1914, filha de Basílio Ferreira da Silva (1867–1950) e de Isabel Maria da Conceição (1884–1917).  

Perdeu a mãe quando contava apenas três anos de idade e foi criada pela madrasta na Fazenda Garrotes, propriedade adquirida por seu pai na década de 1920.  

Mais tarde, contraiu matrimônio com Antônio Antonino Marçal, natural das bandas de São Vicente, retornando a Cruzeta, onde passou a ser conhecida como Ignez da Ilha. 

Foi mãe de Maria, Antônio Filho, Izabel e outros, perpetuando um ramo familiar marcado pela força das tradições seridoenses. 

O pai de Ignez, Basílio Ferreira, casou-se três vezes. Uma de suas esposas pertencia aos Pereira de Araújo, enquanto Isabel Maria descendia dos Brito Guerra. 

Desse conjunto de uniões nasceram Minel, Lino, Gentil, Ignez, Francisco e Ana Araújo, esta última nora do padre Thomaz Pereira de Araújo. 

Um dos netos de Basílio, filho de Gentil Ferreira, recebeu o nome de Manoel Basílio, homenagem ao povo dos Brito Guerra. 

Entre os aspectos curiosos da antiga Fazenda Garrotes figurava um relógio de sol erguido no terreiro, assentado sobre uma base de madeira em meia-lua, cuidadosamente alinhado para marcar com precisão o meio-dia. 

Nessa propriedade, Basílio dedicava-se à criação de garrotes da raça “poledan”, corruptela local de Polled Angus, linhagem britânica famosa pela musculatura volumosa e pela carne marmorizada que, entremeada de feixes de gordura, confere notável maciez e sabor. 

Além da pecuária, a terra respondia generosamente quando o nível das águas do açude baixava, expondo vazantes férteis que produziam frutas, verduras e tubérculos em abundância, de tal forma que o alpendre e até parte da sala viviam abarrotados de colheitas. 

Basílio possuía ainda terras nas mediações da Fazenda Remédios, no atual município de Cruzeta, e faleceu em 1950, sendo sepultado no cemitério público de Acari. 

Casado três vezes e deixando prole em diferentes matriarcas, sua herança desarticulou-se rapidamente, pois muitos dos herdeiros venderam precipitadamente seus quinhões ao próprio tesoureiro do patriarca, com exceção de Francisco, que vivia em Minas Gerais desde os dezessete anos.

A história das terras do Seridó, todavia, remonta a tempos mais antigos. Em 24 de março de 1759, sob o governo de José Henrique de Carvalho, os tenentes Vicente Ferreira Neves e Sebastião de Medeiros solicitaram sesmaria em nome de Sua Majestade, declarando terem descoberto, à custa de seu esforço e risco, terras devolutas e desaproveitadas sobre a serra da Borborema. 

Requereram três léguas de comprido por uma de largo, na região do Albino e do riacho Olho d’Água Grande, cujas confrontações eram, ao nascente, com terras da Companhia de Jesus no sítio do Poço; ao poente, com terras do defunto Izidoro Hortins; ao norte, com propriedades de Antônio de Araújo Frazão e Cosme Dias de Araújo; e ao sul, com José da Costa Romeu ou quem de direito fosse. 

A concessão foi devidamente outorgada. Dessa ascendência provém Pedro Ferreira das Neves, casado com Custódia de Amorim Valcácer, genitores de Apolônia Barbosa de Araújo e outros descendentes que povoariam o sertão.

Séculos depois, registrar-se-ia que a Fazenda Garrotes pertencera a Félix Araújo, o Félix dos Garrotes, no século XIX, sendo adquirida por Basílio Ferreira por vinte contos de réis, no início do século XX, diretamente de Sóter Pereira, neto de Félix dos Garrotes. 

Aquela gleba viria a proporcionar grande riqueza ao novo proprietário, não apenas pela criação de Polled Angus, raça inglesa desenvolvida no condado de Angus para produção de carne macia e saborosa, mas também pela fertilidade das vazantes que surgiam quando as águas baixavam, permitindo colheitas abundantes que enchiam armazéns, alpendres e dependências domésticas. 

Do mesmo modo, o relógio solar da propriedade, único na região, dividia seu quadrante em seis espaços e projetava a sombra certeira do meio-dia, conferindo ao lugar um pitoresco caráter de observatório rural. 

O peso daquela transação se torna mais compreensível quando se recorda que um conto de réis equivalia a um milhão de réis, unidade cujo valor intrínseco era considerável: em 1833, 2$500 correspondiam a uma oitava de ouro, cerca de 3,59 gramas de vinte e dois quilates, de modo que um conto equivalia, aproximadamente, a 1,4 quilograma do metal. Em 1920, conforme cálculos de conversão, um conto de réis equivaleria a cerca de cinquenta e seis mil reais atuais.

A saga da Fazenda Garrotes, entretanto, não se resume a transações monetárias ou à prosperidade de Basílio Ferreira. Ela remonta ao patriarca Félix de Araújo Pereira, conhecido como Félix dos Garrotes, figura imponente cujo domínio se estendia pela antiga estrada que cruzava a Vaca Brava, subia a serra e passava pelo Açude Mãe d’Água. Morreu por volta de 1905, deixando entre seus filhos Joaquim da Virgem, nascido por volta de 1865. 

Um episódio trágico marcou a linhagem, após encontrarem o pai morto sob uma árvore, os irmãos teriam presenciado Joaquim Félix, um deles, agir com insensibilidade, pois, movido pelo impulso, ocupou-se em comer o mel que havia no local, ignorando o corpo paterno. 

A atitude, vista como afronta, gerou um rompimento tão grave que Joaquim Félix desapareceu por completo dos registros familiares, tornando-se o grande enigma que ainda hoje impede a reconstituição plena da linhagem paternal do narrador.

O desaparecimento de Joaquim Félix, não seria o único acontecimento a remodelar o destino dos Araújo Pereira. A construção do Açude de Cruzeta, marco de progresso para a região, transformou a paisagem e inundou vastas extensões de terras pertencentes à família Ferreira. 

As propriedades de Vicente Pereira, pai de Basílio, foram submersas pelas águas do açude. A indenização recebida por Basílio, vultosa e determinante, acabou intermediada por Joaquim da Virgem, filho de Félix, que se encarregou de conduzir toda a transação sem que Basílio sequer tocasse no dinheiro. 

O montante foi aplicado diretamente na compra de parte da mesma propriedade que pertencera ao avô de Joaquim, fechando um ciclo singular entre as duas famílias. Assim, o dinheiro proveniente das terras inundadas dos Ferreira converteu-se no capital que firmou a presença de Basílio na Fazenda Garrotes.

Sob o domínio de Basílio Ferreira, instaurou-se uma nova era na propriedade. Entre as décadas de 1920 e 1950, ele consolidou sua fortuna, tornou-se homem próspero e administrou a fazenda com o auxílio de Major Sátiro, indivíduo encarregado de guardar e controlar todos os valores provenientes da venda de animais e produtos agrícolas. 

Com a morte de Basílio, em 1950, e a subsequente desunião de seus herdeiros, a fazenda foi vendida ao próprio Major SátIro, encerrando-se assim o ciclo da família Ferreira naquela terra.

Persistem, para tanto e entretanto, fios soltos na trama que ainda desafiam a memória e a genealogia local, tipo a origem exata de uma das esposas de Basílio, possivelmente ligada aos Brito Guerra ou aos Pereira de Araújo; a chegada da família Marçal à história, especialmente após o casamento de Ignez; e, sobretudo, o destino de Joaquim Félix, cuja ausência permanece como a principal sombra na linhagem dos Araújo Pereira. 

Investigações futuras, que incluem visitas à Fazenda Garrotes e a Cruzeta, além da consulta a certidões e testemunhos de moradores antigos, podem lançar luz sobre essas questões. 

Entre os habitantes que guardam lembranças da região, figura Gorete Barata, que reside atualmente em Currais Novos, cujo conhecimento local pode revelar detalhes decisivos.

A narrativa da Fazenda Garrotes, entrelaçando as famílias Araújo Pereira e Ferreira, revela como a terra e a água moldaram destinos, provocaram rupturas e geraram legados. 

Entre tragédias familiares, inundações, desaparecimentos e disputas, o passado permanece vivo e pulsante, lembrando que a busca pelas origens é sempre uma jornada interminável, na qual cada resposta alcançada se converte, inevitavelmente, em nova pergunta.

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