SEU ANTÔNIO MEDEIROS, DE VAQUEIRO A FAZENDEIRO


Antônio de Medeiros Costa, conhecido em toda parte simplesmente como Seu Antônio Medeiros, nasceu na vila de São Tomé, no coração da Ribeira do Potengi, em 1918. Era filho de Silvino da Costa Medeiros (1877–1958) e de Auta Aurora de Araújo (1888–1948), integrando uma numerosa família de dez irmãos, realidade comum nos lares seridoenses das primeiras décadas do século XX, quando os filhos representavam não apenas a continuidade da família, mas também a força necessária para enfrentar a dura lida da terra. Numa dessas manhãs de domingo que o Sertão do Seridó costuma guardar na memória como se fossem capítulos de um livro antigo, o escritor Joselito Jesus de Araújo (n. 1972) teve a oportunidade de sentar-se à sombra da conversa boa com Hermes Medeiros Costa (1927-2020), irmão de Seu Antônio Medeiros, estando presente também Antônio Medeiros Filho (n. 1958), o caçula deste. Seu Antônio Medeiros viveu a infância numa época quando as estradas eram poucas, o transporte dependia dos animais de sela e as notícias viajavam lentamente pelos caminhos dos sertões do Seridó. Eram tempos em que o Estado buscava consolidar sua rede de ensino público, ampliada nas primeiras décadas republicanas por meio dos grupos escolares, instituições que simbolizavam o esforço de modernização educacional do país. Em São Tomé, frequentou o Grupo Escolar Tomaz de Araújo, onde estudou até a segunda série primária. Ainda menino, Seu Antônio passou a acompanhar os pais nas tarefas do sítio, aprendendo os segredos da terra rachada pela sequidão e as esperanças renovadas a cada inverno. Era o tempo em que o seridoense media a vida pelo ritmo das chuvas. Um bom inverno significava fartura, açudes cheios e criação fortalecida; um ano de seca trazia incertezas, migrações e dificuldades. Desde cedo, Seu Antônio Medeiros aprendeu a conviver com essa alternância que moldou o caráter do povo seridoense e de tantas famílias espalhadas pelos sertões do Seridó. Como tantos homens de sua geração, carregou consigo os valores herdados dos antigos seridoenses, tais como o respeito aos mais velhos, a fidelidade à família, a religiosidade simples e a disposição para enfrentar as adversidades sem alarde. Do ano de 1925 até 1935, Seu Antônio Medeiros morou no Sítio Saco do Olho d'Água, em terras que sua tia Vicência Otília de Araújo (1888-1944) e o esposo Hermógenes Pereira de Araújo (1884-1954) cederam de bom coração, sem cobrar vintém. Em 1935, a família tocou a mudança para o Sítio Cardeiro, propriedade de Silvino Adonias Bezerra (1891-1959). Só o irmão mais velho, Félix Medeiros Neto (1916-1997), ficou pra trás, não por escolha, mas porque estava servindo às Forças Armadas lá no Sudeste, longe da Ribeira da Acauã. No Sertão do Seridó, o nome carregado pelo filho é muitas vezes uma homenagem silenciosa aos que vieram antes. Não foi diferente na família Medeiros. Félix Neto recebeu o nome do avô, o Tenente Félix Antônio de Medeiros, que viveu de 1833 a 1900 e deixou raízes fundas naquele chão. O Tenente era casado com Tereza Durqueza de Faria, nascida em 1842 e falecida em 1927. Guardar o nome do avô no neto é um costume antigo do povo seridoense, um jeito de manter viva a memória de quem abriu o caminho. Mas voltando à conversa, no ano seguinte, em 1936, Seu Antônio Medeiros pegou um posto de responsabilidade, pois foi trabalhar como cevador de algodão no descaroçador do Cardeiro, no lugar de Sebastião Bezerra de Araújo (1902-1989). Por volta de 1937, a família fez mais uma mudança, desta vez para a Fazenda Pinturas, onde Seu Antônio Medeiros tomou o posto de vaqueiro. Foi nessa época que a confiança de Silvino Adonias Bezerra (1891-1959) alcançou Seu Antônio Medeiros e permitiu que criasse seus próprios animais junto ao rebanho da fazenda. Na Ribeira da Acauã, essa era uma dádiva das grandes. Ter o direito de criar o próprio gado na terra do patrão era sinal de respeito e confiança, coisa que não se ganhava com palavras, mas com trabalho e honestidade. Aquela oportunidade foi o divisor de águas na vida de Seu Antônio Medeiros. Com o direito de criar seus próprios animais na fazenda do velho Balá, ele foi juntando o que podia, organizando o dinheiro com cuidado de quem sabe o valor de cada vintém suado. O seridoense que trabalha com propósito não demora a colher. Em 1944, Seu Antônio Medeiros deu o passo mais importante da sua vida que foi a compra de sua primeira propriedade, o Sítio Rubertão, em São Vicente, por 12 contos de réis, Cr$ 12.000,00. Era chão próprio, fruto do seu suor. Naquele momento, uma história de prosperidade e dedicação estava só começando. As terras compradas de Chicó Dondô tinham um problema: não havia benfeitorias. Sem casa, sem estrutura, não havia como se mudar para lá, nem como mandar seus pais, que era o que ele mais queria. O sonho teria que esperar um pouco mais. Ainda naquele mesmo ano, por intermédio de Francisco Raimundo de Araújo (1911-1994), Seu Antônio Medeiros comprou o Sítio Carretão por 10 contos de réis. Depois, adquiriu um terreno de João Cândido que ficava bem no meio das duas propriedades, separando uma da outra. Com aquela compra, as terras se uniram e viraram uma só. Em 12 de janeiro de 1945, Seu Antônio Medeiros realizou o que tanto desejava, que era acolher seus pais e irmãos nas terras recém-adquiridas. Foi aí que a família mostrou sua força. Os irmãos Hermes Medeiros Costa (1927-2020) e Cândida Medeiros Costa (1924-2001) não pensaram duas vezes, venderam parte do seu gado e emprestaram o dinheiro ao irmão Antônio Medeiros. Com esse apoio, Seu Antônio Medeiros não parou. Em 1945, comprou mais um cercado de Manoel João Evangelista, ampliando ainda mais suas terras. Tijolo por tijolo, palmo por palmo, a história de sua prosperidade ia sendo construída com suor, honestidade e o apoio da família.  Em 25 de fevereiro de 1948, Seu Antônio Medeiros casou-se com Josefa Cunha de Medeiros (1926-1990). O casal fincou raízes primeiro na Casa das Pinturas, onde viveram até 1949, quando tocaram a mudança para o Sítio Pai Mané. A seca de 1951 fez o que a seca sempre faz no Sertão do Seridó, obrigou a família a se mexer. Foram para Vaca Brava, mas o coração puxava de volta, e não demorou para retornarem ao Pai Mané, onde viveram até 1954, ainda como moradores nas terras de Silvino Adonias Bezerra, o Balá. Mas Seu Antônio Medeiros já sabia que aquela vida tinha prazo. Era hora de cuidar do que era seu. Ainda em 1948, ele havia dado o primeiro passo nessa direção, iniciando a compra das terras dos tios de sua esposa, Josefa Cunha, mais um tijolo assentado na construção do seu próprio destino. Para dar o passo que queria, Seu Antônio Medeiros vendeu o Carretão e, com o dinheiro, adquiriu sua primeira propriedade em solo acariense. Mas o vaqueiro tinha visão de quem enxerga longe, pois comprou o Carretão de volta, desta vez a prazo, para revendê-lo à vista com um lucro gordo. Foi assim que criou seu capital de giro, com a esperteza calma de quem aprendeu a lidar com a vida sem pressa e sem desperdício. A partir daí, o vaqueiro Antônio Medeiros deixou de ser apenas um homem de trabalho duro para se tornar um homem de posses. A saga estava começando. Assim, Seu Antônio Medeiros não parou mais. Comprou todas as terras dos tios da esposa e foi além, adquirindo propriedades em diferentes regiões dos sertões do Seridó, num ciclo de compras e vendas que rodou por anos, sempre com a cabeça fria e o coração firme. Cada negócio era um passo, cada palmo de terra conquistado era prova de que o caminho estava certo. Esse ciclo só teve fim quando chegou a hora de repartir. Com justiça e afeto, Seu Antônio Medeiros dividiu suas terras entre os sete filhos, deixando para cada um o fruto daquela vida inteira de trabalho. E ele sabia disso. Carregava com orgulho, o dito orgulho honesto de quem não herdou nada e não precisou herdar. Tudo que tinha, tinha conquistado por mérito próprio, com as mãos calejadas e a alma íntegra. No Sertão do Seridó, não há riqueza maior do que essa. Era 1999 quando estávamos sentados na calçada de Paulo de Arthur, jogando conversa fora, como se faz na Ribeira da Acauã quando a lua aponta na cabeceira da serra. Foi quando Seu Antônio Medeiros apareceu no oitão da calçada. Paulo não perdeu tempo e logo soltou a dele, com aquele jeito seu: — Lá vem o homem que conquistou fortuna, já deu a herança dos filhos em vida e com duas garrotas já começou a comprar terra de novo! Seu Antônio Medeiros chegou chegando, puxou uma cadeira de balanço e se acomodou como quem tem história pra contar e, tinha, muita. Porque Seu Antônio Medeiros não era só vaqueiro e fazendeiro. Era um guardador de memórias, um conhecedor fundo da história do seu povo e da sua terra. Naquela noite de agosto destrinchou causos e acontecimentos de outrora sem se fazer de rogado. Falou da saga dos irmãos Medeiros — Rodrigo e Sebastião — lá pelos idos do século XVIII. Discorreu sobre o combate que Domingos Jorge Velho deu na indiarada por aquelas bandas e, de memória, indicou até onde os índios foram enterrados. O Sertão do Seridó tem dessas preciosidades que são os homens que carregam no peito a história que os livros não alcançam. E, Seu Antônio Medeiros era dos raros que faziam os dois caminhos, ouvia os mais velhos com atenção de quem sabe que a memória viva é o maior arquivo que existe, e ainda lia muito, desde jovem. Sem formação acadêmica, ele era um leitor exímio, sobretudo da literatura regional. Conhecia bem os clássicos — Dom Adelino Dantas, José Augusto Bezerra de Medeiros, Olavo de Medeiros Filho — e tantos outros que se debruçaram sobre a história e a alma do Seridó. Não à toa, o escritor Paulo Bezerra Balá, autor das Cartas dos Sertões do Seridó e amigo de longa data de Seu Antônio Medeiros, era visita frequente em sua casa. Chegava não só pelo prazer da prosa boa, mas para fazer as consultas certas, aproveitando o saber de Seu Antônio Medeiros como fonte viva para os conteúdos de seus livros. No Sertão do Seridó, há quem escreva a história e há quem a guarde. Seu Antônio Medeiros sabia fazer os dois.



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