OS PRAXEDES DO TAIPU QUE CONQUISTOU O SERIDÓ
Em meados da década de 1990, numa fila do Banco do Brasil em Currais Novos, ocorreu um encontro simples, mas de forte simbolismo. Ali, entre as pessoas que aguardavam atendimento, estava o doutor Cristóvam Praxedes, homem de honra, serenidade e rara distinção, cuja figura já era amplamente respeitada em todo o Seridó. Natural do município de Taipu, no Rio Grande do Norte, Cristóvam nasceu em 31 de janeiro de 1940, fruto da união de Otávio Praxedes do Amaral Lisboa e Maria das Dores Soares. Seu pai, nascido em Ceará-Mirim em 1901 e falecido em Recife em 1982, fora intendente de Taipu nos anos de 1930 a 1931, além de próspero comerciante e produtor rural, homem de ideias progressistas e grande liderança local.
Da mãe, herdou a serenidade e o senso de justiça que marcariam sua trajetória. O casal Otávio e Maria das Dores descende da antiga e honrada família Praxedes, originária do Vale do Ceará-Mirim, cujas raízes remontam ao tenente-coronel Vicente Praxedes Benevides Pimenta, patriarca que legou aos descendentes o espírito de trabalho e a vocação para o serviço público.
Casado com Adélia Isabel da Cunha, a quem sempre dedicou reconhecido carinho e gratidão, Cristóvam formou-se em Direito em 1969, iniciando uma carreira jurídica que se estenderia por mais de quatro décadas de dedicação exemplar à magistratura potiguar. Exerceu a judicatura em diversas comarcas — São Miguel, Acari, Alexandria, Currais Novos e Caicó —, onde deixou marcas de sabedoria, serenidade e profundo senso de justiça. Seu trabalho e conduta irrepreensíveis o conduziram, pelo critério de antiguidade, ao cargo de desembargador do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte em 1999.
Em toda a sua trajetória, Cristóvam Praxedes destacou-se pela firmeza de caráter, pela sensatez nas decisões e pela humanidade com que tratava as pessoas, fossem colegas de toga, servidores ou cidadãos comuns.
Entre 2007 e 2008, exerceu o cargo de corregedor de Justiça, função em que se empenhou por uma atuação mais célere e justa do Poder Judiciário, combatendo a morosidade processual e defendendo o compromisso ético dos magistrados com a sociedade.
Sua trajetória institucional foi coroada por inúmeros reconhecimentos. Em 2009, a Câmara Municipal de Natal concedeu-lhe o título de Cidadão Natalense, publicado no Diário Oficial do Município, em justa homenagem aos serviços prestados à Justiça e à sociedade norte-rio-grandense. Nesse mesmo ano, durante sua última sessão plenária no Tribunal de Justiça, o desembargador Rafael Godeiro, então presidente da Corte, expressou a gratidão do Judiciário potiguar pelos 40 anos de dedicação do colega. Os discursos daquela cerimônia foram marcados pela admiração e pelo respeito.
O desembargador Amaury Moura, representando os pares, citou La Rochefoucauld ao afirmar que “a ausência diminui as amizades pequenas e aviva as grandes”, expressão que bem traduzia o sentimento dos presentes diante da despedida de um homem cuja retidão e amizade permaneceriam vivas na memória institucional.Em seu pronunciamento de despedida, Cristóvam Praxedes afirmou deixar a Corte com a consciência tranquila do dever cumprido, levando consigo as melhores lembranças dos colegas.
Com humildade e gratidão, fez questão de agradecer aos servidores do Tribunal, ao motorista e à equipe de gabinete, a quem chamou de “um espetáculo de equipe”. Concluiu suas palavras dedicando especial reconhecimento à esposa e aos filhos, que considerava a maior razão de sua vida.
Em 2010, já consagrado pelo respeito público, assumiu a Secretaria de Segurança Pública do Estado, a convite do governador Iberê Ferreira de Souza, levando para o Executivo sua experiência e seu espírito conciliador.
Mesmo após sua aposentadoria, continuou sendo presença respeitada e voz ponderada nos círculos jurídicos. Participou de eventos institucionais, como o encontro entre as Corregedorias de Justiça da Paraíba e do Rio Grande do Norte, defendendo a integração administrativa e o fortalecimento da Justiça regional. Nessas ocasiões, reiterava a necessidade de combater a lentidão dos processos e de aproximar o Judiciário do povo, princípios que sempre nortearam sua vida pública.
Cristóvam Praxedes é parte viva da linhagem dos Praxedes do Vale do Ceará-Mirim e de Taipu, família de raízes profundas e história centenária. Descende de homens e mulheres que, desde o século XIX, contribuíram para o desenvolvimento do Rio Grande do Norte com trabalho, fé e espírito público.
O exemplo de seu avô, Otávio Praxedes, e de sua mãe, Maria das Dores, ecoou em sua conduta como magistrado íntegro e servidor dedicado. Sua vida, marcada pela retidão e pelo equilíbrio, tornou-se um espelho para todos que almejam servir à Justiça com dignidade.
A lembrança do desembargador Cristóvam Praxedes transcende a toga que vestiu com honra. É a memória de um homem cuja palavra refletia serenidade e cujos gestos revelavam nobreza. Do menino nascido em Taipu ao magistrado reverenciado em todo o Seridó e no Estado, sua trajetória é exemplo de serviço, ética e amor à terra potiguar. Um legado que permanece vivo na história da Justiça e no coração de todos que, um dia, cruzaram seu caminho.
A antiga e nobre família Praxedes, originária do fértil Vale do Ceará-Mirim, é uma das mais tradicionais do Rio Grande do Norte, tendo deixado marcas indeléveis na história social e política do estado. Seu tronco genealógico remonta ao tenente-coronel Vicente Praxedes Benevides Pimenta, patriarca que, entre meados do século XIX e o início do XX, consolidou uma descendência numerosa e respeitada.
Casado com dona Herculana Josefa do Amor Divino e, posteriormente, com dona Antônia Mafalda de Oliveira, o coronel Vicente foi pai de vinte e dois filhos, todos batizados com o sobrenome Praxedes e responsáveis por expandir o nome da família por todo o território norte-rio-grandense.
Entre esses descendentes, destacou-se Francisco Praxedes Benevides Pimenta, nascido em 1835, que, à semelhança do pai, tornou-se tenente-coronel da Guarda Nacional, senhor de terras, gado e prestígio. Seu falecimento precoce, em 1872, aos trinta e sete anos, deixou viúva Raimunda Cândida do Rêgo Leite Praxedes, com seis filhos ainda pequenos.
A tradição oral relata que, durante a grande seca de 1877, dona Raimunda deixou a Serra do Martins rumo ao Vale do Ceará-Mirim, conduzindo uma tropa de cem animais. Ao chegar ao destino, restava-lhe apenas a montaria, pois a travessia árida consumira os demais.
Instalada nas terras verdejantes do Vale, especialmente na localidade de Coqueiros, Raimunda viu crescer seus filhos — Maria, João, Herculana, Cândida e os dois Franciscos — que perpetuaram o nome dos Praxedes naquela região. Entre eles, João Praxedes do Amaral Lisboa viria a ser o elo decisivo na formação do ramo familiar que se estabeleceria em Taipu, dando origem a uma nova geração de líderes e cidadãos ilustres.
João Praxedes, barbeiro de ofício, casou-se com Petronila Rodrigues Santiago, descendente direta de famílias de projeção histórica, entre as quais a dos Raposo da Câmara, cujo ancestral Manoel Raposo da Câmara, fidalgo português e morgado da Ilha de São Miguel, nos Açores, figurou entre os fundadores das linhagens mais antigas do Ceará-Mirim. Dessa união nasceu Otávio Praxedes do Amaral Lisboa, figura central na consolidação dos Praxedes em Taipu.
Otávio Praxedes, nascido em Ceará-Mirim a 4 de maio de 1901, foi homem de visão e energia empreendedora. Na juventude, mudou-se para o povoado da Boa Vista, em Taipu, onde passou a trabalhar com o tio materno, Manoel Rodrigues Santiago, conhecido por “Ué”. A partir dessa convivência, construiu seu próprio comércio e se tornou, nas décadas de 1940 e 1950, um dos maiores fornecedores de gêneros alimentícios e produtos rurais do Mato Grande. Visionário, introduziu inovações que marcaram a história econômica da região: foi o primeiro a adquirir um rádio movido à energia eólica, um caminhão Mercedes-Benz e uma colheitadeira, símbolos de modernidade em pleno sertão potiguar.
Em 1932, por indicação de seu primo, o senador João Severiano da Câmara, foi nomeado intendente da Vila de Taipu, exercendo o cargo com notável senso administrativo e espírito progressista. De personalidade firme, mas de trato afável, construiu uma vida pautada no trabalho, na fé e na união familiar. Casou-se, em 1926, com Maria das Dores Soares, filha de João Soares da Silva e Izabel de Vasconcelos Soares, com quem compartilhou cinquenta e sete anos de matrimônio e a criação de doze filhos.
Entre esses filhos, o destino reservou lugar especial para um nome que elevaria ainda mais o prestígio da linhagem: Cristóvam Praxedes. Desde cedo, revelou a herança de caráter e inteligência herdada dos antepassados. Formado em Direito em 1969, ingressou na magistratura potiguar, onde construiu uma carreira exemplar marcada pela retidão, equilíbrio e humanidade. Serviu como juiz em diversas comarcas, destacando-se as do Seridó Acari, Currais Novos e Caicó, ganhando o respeito de seus pares e o afeto da população local.
Sua ascensão ao cargo de desembargador do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte, em 1999, coroou uma trajetória de mais de quarenta anos de serviço à Justiça. Exercendo também o posto de corregedor de Justiça, sendo reconhecido pela luta contra a morosidade processual e pela defesa de uma magistratura ética e comprometida com o cidadão.
O desembargador Cristóvam Praxedes tornou-se o mais notável representante contemporâneo da família, símbolo da continuidade de uma linhagem que atravessou séculos preservando valores de honradez, trabalho e serviço público. Sua vida reflete o ideal de justiça e dignidade que os Praxedes cultivaram desde o patriarca Vicente, no século XIX, até os dias atuais.
A família Praxedes, que outrora se reunia nas fazendas para celebrar a colheita, o aniversário dos pais ou a simples alegria de estar unida, viu em Cristóvam a síntese viva desse legado. Ele representou, com nobreza e humildade, a força ancestral do nome Praxedes, verdadeira herança que não se mede em terras ou títulos, mas em princípios, memória e exemplo.
Portanto, a história dos Praxedes do Vale do Ceará-Mirim e de Taipu não é apenas uma narrativa genealógica, mas o retrato de uma dinastia potiguar cujo expoente maior, Cristóvam Praxedes, transformou o nome da família em sinônimo de justiça, integridade e compromisso com o bem comum.
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