ARY PEREIRA E CLOTILDE, ENCONTRO DO DESTINO

 



 


A história de amor de Ary Pereira de Araújo e Clotilde se desenrolou no sertão do Rio Grande do Norte, na efervescência da década de 1950, quando o Brasil, sob o governo de Getúlio Vargas, investia na construção de estradas. Foi nessa época que o Departamento de Estradas de Rodagem (DER) empreendeu a ligação entre Mossoró e Luís Gomes.

Um jovem acariense, recém-saído do Exército, se juntou à equipe do Batalhão de Engenharia, trabalhando na construção de um trecho da estrada entre Pau dos Ferros e José da Penha. Mal sabia ele que, ali, conheceria o amor de sua vida. Não muito distante, vivia Clotilde, uma jovem que acabara de voltar de Mossoró e auxiliava os pais nas lidas do campo.

Os dois se conheceram nas animadas "valsas" que aconteciam no Terreiro de seu Augusto Holanda, padrinho de Clotilde, um ponto de encontro de jovens da região. Ary, que era seresteiro, usava seu talento para encantar as moças, mas foi o coração de Clotilde que ele conquistou. 

O namoro, no entanto, teve que ser às escondidas, e a comunicação se dava por meio de bilhetes entregues pelo amigo paraplégico Antídio Gurjão, que servia de mensageiro.

O romance durou mais de um ano, até que o casal decidiu que era hora de se unirem. Apesar da reprovação do pai de Clotilde, eles planejaram a fuga. 

Em uma noite de luar, o casal partiu para o desconhecido, com poucos trocados no bolso de Ary e duas mudas de roupa na bagagem de Clotilde. Eles buscaram refúgio em Catolezinho, e em 27 de abril de 1955, em uma cerimônia simples na Igreja de São João Batista, em Riacho de Santana, fizeram seus juramentos de amor.

O casamento às escondidas e a fuga geraram a reprovação de "Seu" Raimundo Rodrigues, pai da noiva, mas o amor do casal foi mais forte. Ary, boêmio e cantor, respeitou a independência da esposa, e juntos tiveram nove filhos e quase 40 netos. 

A educação dos filhos foi rígida, com sermões e punições quando necessário, mas com os netos, o casal se mostrou mais indulgente. 

Já na velhice, quando estavam confinados em casa, a rotina de implicância e as acusações de "roubo" no jogo de cartas se tornaram uma forma de entretenimento.

Essa história de amor, que já dura 67 anos, enfrenta agora o desafio da doença. Clotilde vive com Alzheimer, e Ary, que sempre teve boa saúde, sofreu um AVC, comprometendo sua fala e cognição. 

O silêncio de um afeta o outro, e as trocas de olhares, que só o amor pode proporcionar, são as únicas formas de comunicação que lhes restam.

O autor, que é filho do casal, testemunhou as brigas, que considera naturais, mas nunca viu um amor tão intenso quanto o deles. Ary e Clotilde protagonizaram e continuam a protagonizar uma verdadeira e inesquecível história de amor.

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