FERNANDO GALVÃO E AS RAÍZES GENEALÓGICAS DO SERIDÓ


A genealogia, muitas vezes percebida como um simples registro de nomes e datas, revela-se uma ferramenta indispensável para compreender a complexa formação social do sertão nordestino, especialmente no Seridó, região do Rio Grande do Norte em que as linhas de parentesco constituem o alicerce das comunidades, do poder político e da identidade cultural. 

A partir do vasto conhecimento de Fernando Antônio Bezerra Galvão, reconhecido como uma verdadeira “enciclopédia viva da genealogia do Seridó”, é possível mergulhar nas dinâmicas familiares e históricas que moldaram o território e sua gente. 

Este estudo parte da análise de sua metodologia, passa pela onipresença das relações de parentesco e pela consanguinidade característica da região, identifica as principais famílias fundadoras e acompanha a expansão territorial que deu forma às atuais fronteiras geográficas e culturais do Seridó. 

Compreender essas raízes exige conhecer o pesquisador cuja dedicação permitiu que essa memória permanecesse viva.

O interesse de Fernando Galvão pela genealogia começou de forma simples, ainda na juventude, a partir de um caderno elaborado por sua mãe com anotações sobre datas de nascimento e falecimento de familiares. 

A leitura do livro Currais Novos de Vila a Cidade, de Antônio Othon Filho, intensificou essa curiosidade inicial e o levou a aprofundar-se nos vínculos que uniam os habitantes de sua terra. 

Fernando Galvão desenvolveu então uma metodologia sólida, baseada na combinação de fontes orais, arquivos religiosos, arquivos civis e um vasto acervo pessoal. 

Conversas com moradores antigos, como Dona Marinha, Antônio Cândido e Elias Fernandes, forneceram-lhe relatos valiosos; pesquisas nos arquivos das paróquias de Currais Novos e Acari, facilitadas pela autorização do Padre Aladim e da Irmã Nívea, permitiram-lhe consultar livros de batismo e casamento; e, nos cartórios, graças à boa relação com tabeliães como Mariano Guimarães, Madeirinha, Jango e Patrício Torres, teve acesso a registros de nascimento, casamento, óbito e inventários, fundamentais para reconstruir trajetórias familiares e aspectos materiais da vida dos antepassados. 

Com o tempo, reuniu também fotografias e documentos, muitos deles preservados graças ao seu cuidado em salvá-los do esquecimento. Dessa combinação de métodos resultou uma teia densíssima de parentescos, que ainda hoje caracteriza a sociedade do Seridó.

A consanguinidade, traço marcante dessa estrutura social, não se limita a ser uma curiosidade histórica, mas constitui a chave para compreender a coesão interna das linhagens seridoenses. 

Em um ambiente marcado pelo isolamento geográfico, os casamentos dentro do próprio grupo familiar funcionaram como estratégia para preservar propriedades, evitar a fragmentação das terras, fortalecer alianças e garantir uniões entre pessoas de reputação conhecida. 

Como concluiu Fernando Galvão em suas primeiras investigações, “quase todo mundo da nossa cidade era parente um do outro”, percepção que se confirma em sua própria árvore genealógica, repleta de cruzamentos entre ramos maternos e paternos. 

Exemplos ainda mais intrincados, como o do casal Wallace e Altiva, ilustram a profundidade dessas interconexões, em que pais, avós e até as mães de ambos mantêm vínculos de parentesco múltiplos e simultâneos. 

Essas relações não surgiram por acaso, pois resultam da descendência comum de um conjunto limitado de casais pioneiros, responsáveis por povoar e estruturar socialmente a região.

Entre os principais troncos familiares identificados por Fernando Galvão, destacam-se linhagens como a de Tomais de Araújo Pereira, cuja descendência ultrapassa 25 mil pessoas, mesmo tendo o ancestral apenas duas filhas; a de Antônio Pires e Guilhermina, de que já se catalogaram cerca de 10 mil descendentes; a de Cipriano Lopes Galvão e Dona Adriana, marcada por debates sobre a verdadeira origem do patriarca e pela dúvida quanto à suposta ascendência holandesa da matriarca; e a de Alexandre Rodrigues da Cruz, português e Sargento de Milícias, proprietário de importantes datas de terra e antepassado de inúmeras famílias seridoenses. 

Apesar da grandiosidade de seu acervo, Fernando Galvão reconhece que ainda há muito a pesquisar, sobretudo sobre famílias como os Lucena, os Queirós e os Dias, demonstrando que a genealogia é sempre um campo em expansão.

Para compreender plenamente a formação dessas famílias, é indispensável acompanhar também a evolução territorial e administrativa do Seridó, considerando os registros vitais tais como batismos, casamentos e óbitos acompanham as mudanças de freguesias, vilas e municípios. 

Inicialmente, toda a região estava sob a jurisdição da Freguesia de Nossa Senhora do Bom Sucesso, em Pombal, na Capitania da Paraíba. Com a criação da Freguesia de Santana de Caicó, esta se tornou o centro religioso e administrativo, concentrando até 1835 quase todos os registros da população seridoense. 

A formação da Freguesia de Acari, desmembrada de Caicó, marcou nova etapa da organização territorial, e, posteriormente, o território de Currais Novos, então parte de Acari, conquistou autonomia própria. 

Semelhantemente, a reconstrução das histórias familiares currais-novenses exige pesquisa nos arquivos de Acari e, para períodos ainda mais antigos, nos de Caicó. 

Nesse processo, teve papel decisivo o Senador Brito Guerra, cuja ação política incorporou ao Rio Grande do Norte áreas do Seridó antes pertencentes à Paraíba, contribuindo para consolidar a identidade do Seridó potiguar.

A compreensão dessa vasta rede de famílias, documentos e territórios revela que o trabalho genealógico, sobretudo o realizado por Fernando Galvão, transcende a mera coleta de dados. É um ato de preservação cultural e existencial. 

A ideia de que é preciso conhecer o passado para estar bem no presente sintetiza o valor desse esforço de memória. Cada união, cada escolha de um ancestral, cada vínculo registrado foi essencial para que cada indivíduo existente hoje pudesse vir a ser. 

Recuperar essas histórias significa resgatar trajetórias que construíram o presente, valorizando uma herança que, sem esse cuidado, poderia se perder. 

Nesse sentido, a genealogia torna-se uma forma de compreender a jornada humana, honrar o legado das gerações passadas e inspirar as futuras a conhecerem e reconhecerem o valor de suas próprias origens.



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