IZAURA ISAIAS DE MEDEIROS (1915/2004)

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filha de Manoel Lucas de Medeiros e Maria Libanea de Medeiros, foi uma matriarca de memória privilegiada. 

Esposa de José Quintino de Medeiros (1915–1989) e genitora de Agildo, Lenira, entre outros filhos, ela preservou com notável lucidez a história de sua gente. 

Em maio de 1999, na sala de sua residência em Acari, situada na Praça Cipriano Pereira, nº 15, outrora lar de Ana Marcolina de Jesus (Aninha do Ingá), Dona Izaura compartilhou com este entrevistador episódios marcantes da trajetória familiar e regional, com destaque para a dramática passagem do cangaço pelo Seridó.

Dentre as narrativas rememoradas, sobressai o célebre processo criminal de 1927 contra o bando de Francisco Pereira Dantas, vulgo "Chico Pereira". Este episódio teve como estopim o assalto à propriedade do Coronel Joaquim Paulino de Medeiros (o Coronel Quincó), então com 84 anos, no Sítio Rajada, comarca de Acari.

Na noite de 1º de fevereiro de 1927, quatro homens armados, supostamente liderados por Chico Pereira e integrados por seu irmão Aproniano ("Henrique"), Marcionillo de Tal e o jovem Antonio José invadiram a residência sob o falso pretexto de uma diligência policial. 

Uma vez no interior, renderam a família e, com o uso de uma marreta, arrombaram o cofre da marca "Tigre", subtraindo joias, ouro e uma vultosa quantia em dinheiro, estimada no libelo acusatório em mais de oito contos de réis (8:820$000).

A resposta judicial foi célere para um dos envolvidos. Antonio José, capturado poucos dias após o crime na Paraíba, confessou sua participação e delatou os comparsas, sendo condenado em abril de 1927, pelo Tribunal do Júri de Acari, a 9 anos e 4 meses de prisão.

O destino do líder, Chico Pereira, todavia, foi selado fora dos tribunais. Após permanecer foragido por mais de um ano, foi capturado em agosto de 1928. O julgamento, previsto para outubro, jamais ocorreu. 

Em 29 de outubro de 1928, enquanto era transportado sob escolta do 2º Tenente Joaquim Teixeira de Moura, Chico Pereira faleceu em circunstâncias oficialmente descritas como um "desastre de automóvel" na estrada entre Natal - Currais Novos.

Além dos dramas do cangaço, a memória de Dona Izaura e as pesquisas genealógicas revelam uma linhagem entrelaçada com a própria formação política e social do Rio Grande do Norte.

Coronel Cipriano Bezerra de Araújo figura ativa na defesa da ordem provincial, integrou a Legião Seridoense em 1832 para combater o caudilho Pinto Medeiros e atuou como promotor interino entre 1841 e 1845.

Antônio Pires de Albuquerque Galvão: O pioneiro dos "Pires" no Seridó. Natural de Recife, fixou-se na região em 1821, fugindo da perseguição política em Pernambuco. Casou-se com a filha do Capitão-mor Manoel de Medeiros Rocha e comandou o Esquadrão de Cavalaria da Guarda Nacional da Vila do Príncipe.

Coronel Cipriano Lopes Galvão: Nomeado comissário vacinador por Dom Pedro II em 1849, desempenhando papel crucial na saúde pública da época.

Capitão-mor Manoel de Medeiros Rocha: Membro da junta governativa de Caicó em 1821, vivenciou a transição do Brasil Colônia para o Império, tendo sido sargento-mor de ordenanças ainda no século XVIII.

Capitão-mor Cipriano Lopes Galvão (1753–1813): O fundador de Currais Novos. Governou a Vila do Príncipe por décadas e ergueu a primitiva Capela de Santana, marco zero da fé e do povoamento local.

Thomaz de Araújo Pereira (1765–1847): Presidente da Província e militar de alta patente. Seu neto, o vigário Tomaz Pereira de Araújo, construiu em 1863 a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Guia em Acari, hoje elevada à condição de Basílica Menor.

Sua memória estende-se até figuras seminais como o Capitão-mor Caetano Dantas Correa (fundador de Carnaúba dos Dantas), o Coronel Cipriano Lopes Galvão (primeiro coronel da Cavalaria do Seridó) e o Capitão Francisco Camelo Valcácer, herói da guerra contra os holandeses.

Essas narrativas, que mesclam a violência do cangaço com a nobreza das origens fundadoras, continuam a ecoar nas tradicionais "conversas de pé de ouvido", mantidas vivas por guardiões da memória como o professor José Anjo lá do Talhado, Airon Pires Galvão e, outrora, pela inesquecível Dona Izaura Medeiros.

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