ANTÔNIO MEDEIROS FILHO
No século XIX, o gado era criado solto na caatinga. Como não existiam cercas separando as propriedades, os rebanhos de vários criadores se misturavam nos campos de pastagens. Por isso, era imprescindível o uso do ferro para marcar o gado, a fim de identificar o dono do animal.
No Seridó, existia o ferro com a marca do dono e outro que identificava a origem geográfica do animal, ou seja, a ribeira a que ele pertencia. Nas fotos abaixo, vê-se um ferro de marcar gado do século XIX. O "S" representa a ribeira do Seridó, e o "puxete" no meio da letra indica a região geográfica de Jardim do Seridó.
O estudo da arquitetura rural do sertão nordestino constitui um campo estratégico para compreender as dinâmicas sociais, econômicas e, sobretudo, de adaptação climática que moldaram a ocupação do interior do Brasil. Trata-se de um patrimônio frequentemente ofuscado pela opulência da arquitetura litorânea dos engenhos de açúcar, mas que reúne soluções construtivas singulares e formas de implantação no território capazes de revelar uma complexa rede de saberes e relações humanas. A pesquisa aqui revisitada propõe desconstruir a noção generalizada de um sertão monolítico e, por consequência, de uma arquitetura rural homogênea. Parte-se da premissa de que existiam, na realidade, vários “microcertões”, cada qual marcado por particularidades econômicas e sociais refletidas em um acervo arquitetônico inesperadamente heterogêneo, em contraste com a imagem simplificada que a literatura e o imaginário popular tendem a perpetuar.
Essa investigação nasceu de uma conexão pessoal e afetiva da pesquisadora com a fazenda de sua família, localizada no Seridó potiguar. O fascínio por uma arquitetura praticamente ausente das narrativas midiáticas evoluiu de um interesse particular para um objeto acadêmico amadurecido em colaboração com diferentes instituições. O ponto de partida foi um trabalho de graduação dedicado ao restauro da casa-sede, da casa de farinha e do engenho familiares, germinando a pesquisa que, no mestrado realizado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, com apoio da FAPESP, resultou na catalogação de mais de cinquenta casas de fazenda. A complexidade do material encontrado motivou a ampliação do escopo durante o doutorado, que passou a abranger sertões da Paraíba, do Piauí e da Bahia, consolidando a perspectiva comparativa como eixo analítico fundamental. Mais tarde, um prêmio de pesquisa histórica da Odebrecht viabilizou a inclusão do sertão pernambucano, completando mais de uma década de trabalho e culminando no levantamento de 116 casas de fazenda, cujo conjunto revelou uma diversidade muito maior do que se supunha.
Um dos objetivos centrais da investigação foi desmistificar a imagem de um sertão único. A partir do diálogo teórico entre a pesquisadora e seu orientador, tornou-se evidente que a ideia difundida de homogeneidade “não correspondia à realidade”. Identificou-se, ao contrário, um território fracionado, composto por múltiplos microcertões vinculados a economias distintas, que naturalmente produziam patrimônios arquitetônicos também variados. A provocação inicial — “Não é tudo parecido?” — impulsionou a análise comparativa que revelou partidos arquitetônicos diferenciados. No Piauí, destacaram-se casas de quatro águas com largos beirais, cuja imponência remetia às casas bandeiristas paulistas, sugerindo rotas culturais que ultrapassavam fronteiras regionais. Já no Seridó, no Ceará e na Paraíba, predominavam soluções formais próximas às dos sobrados urbanos, evidenciando vínculos com as vilas e cidades próximas. Essa diversidade invalidava qualquer leitura determinista em que o clima definiria, por si só, a forma. As construções revelaram-se, antes de tudo, “artefatos sociais”, configurados por redes de parentesco, comércio e poder que explicavam mesmo as tipologias que destoavam de seu entorno.
Para além dos estilos, a arquitetura sertaneja se destaca por soluções genuínas de adaptação ao clima semiárido. Na Fazenda Cabaceira, a implantação no alto do terreno, com o açude na parte mais baixa, permitia que o vento predominante se resfriasse ao passar pela lâmina de água antes de alcançar a casa-sede, produzindo conforto térmico de maneira inteiramente passiva. No Seridó, a adoção da “alta cumeeira” criava um amplo bolsão de ar no forro, permitindo que o calor se acumulasse longe da área de vivência. Outras soluções revelam a engenhosidade funcional desses espaços: quartos em alcovas, protegidos da insolação direta, e amplas salas multifuncionais que, equipadas com inúmeros armadores de rede, se transformavam em dormitórios à noite. Mesmo quando essas soluções aparentam simplicidade, manifestam profundo conhecimento empírico sobre o modo de construir e habitar o sertão.
As casas de fazenda, entretanto, não são estruturas fixas, congeladas no século XIX, mas organismos em constante transformação. Inventários e evidências construtivas demonstram que muitas propriedades surgiram com sedes de taipa, substituídas por edificações de tijolos conforme seus proprietários ascenderam economicamente. A ostentação da Fazenda Timbauba dos Gorgulho, com seu projeto elaborado e detalhes arquitetônicos refinados, evidencia o poderio de seu proprietário, Gorgônio Pais Bulhões. A Fazenda Mari representa outro perfil, destacando-se não pela monumentalidade da casa-sede, mas pela modernização tecnológica, graças a um centro produtivo movido por maquinário inglês a vapor. Já a Fazenda Cabaceira ilustra o ideal da autossuficiência, com um conjunto arquitetônico capaz de suprir todas as demandas produtivas — da rapadura à farinha — em estreita articulação com o território.
Esse patrimônio, porém, encontra-se em risco. Paradoxalmente, no momento em que seu valor histórico e cultural começa a ser mais bem reconhecido, muitas dessas edificações agonizam pela falta de manutenção e pela ausência de políticas públicas de preservação. A Fazenda Timbauba dos Gorgulho, apesar do tombamento estadual, está entregue ao abandono, tomada pela vegetação, sem qualquer ação efetiva de conservação. A Fazenda Almas de Cima, antes uma das casas mais bem preservadas em sua configuração original, foi encontrada praticamente reduzida à metade em uma visita recente. O receio de que, ao retornar aos locais estudados, a maior parte deles esteja em situação semelhante acende um alerta contundente sobre a fragilidade desse patrimônio disperso e pouco visível. Urge, portanto, repensar as estratégias de proteção, adotando modelos de gestão adequados à escala rural e à complexidade dessas edificações.
Em síntese, a arquitetura rural do sertão nordestino revela-se um mosaico de estilos, soluções e experiências que refletem a pluralidade dos microcertões que compõem a região. As estratégias bioclimáticas, a funcionalidade dos espaços e a evolução histórica das edificações constituem elementos essenciais para compreender a trajetória social e econômica do Brasil interiorano. Embora não ostentem a suntuosidade dos engenhos litorâneos, essas casas guardam um valor distinto e igualmente significativo: o da inteligência construtiva que soube responder, com sobriedade e precisão, às exigências do clima e da vida sertaneja. Que este estudo, ao documentar e conferir visibilidade a esse acervo, possa despertar o apreço pela história local e inspirar intervenções que assegurem a preservação desse patrimônio, permitindo que as futuras gerações conheçam a resiliência, a criatividade e a memória inscritas nas paredes dessas notáveis construções.

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