PADRE GUERRA
Francisco de Brito Guerra nasceu em 1777 na Fazenda Jatobá, no município de Campo Grande, Rio Grande do Norte, filho de Ana Filgueira de Jesus e de Manuel da Anunciação Lira, e faleceu no Rio de Janeiro em 26 de fevereiro de 1845. Proveniente de uma família de notáveis influências, era tio do padre Manuel José Fernandes e de Manuel Lúcio de Brito Guerra, ambos deputados provinciais, bem como de Luís Gonzaga de Brito Guerra, o Barão de Açu, bacharel em Direito e ministro do Supremo Tribunal de Justiça.Seus primeiros estudos tiveram início em Açu, cidade para a qual sua família se transferira, sob a orientação do padre Luís Pimenta de Santana. Posteriormente, seu pai, que exercia a função de passador de gado, mudou-se com a família para o povoado de Pasmado, atual Abreu e Lima, nas proximidades de Igaraçu, em Pernambuco. Nesse local, Francisco ficou sob os cuidados do professor Manuel Antônio, conhecido em toda a região como “doutor”. Foi nesse período que seu pai faleceu, deixando a esposa grávida e nove filhos em situação de grande dificuldade econômica.
Francisco de Brito Guerra integrou a primeira turma de formandos do Seminário de Olinda, onde cultivou amizade com o bispo local e aprofundou sua formação eclesiástica. Ordenado sacerdote no final de 1801, foi, em seguida, nomeado pároco encomendado de Caicó, tomando posse da freguesia no primeiro domingo do Advento de 1802. A partir de então, passou a residir com sua mãe e irmãs no imponente sobrado que mandou construir entre 1810 e 1811. A edificação, de arquitetura inovadora para a época, tornou-se um marco na história construtiva do Seridó e fomentou o desenvolvimento urbano de Caicó. Durante muitos anos, funcionou no local uma prestigiada Escola de Latim, refletindo a erudição de Brito Guerra, notável latinista, enquanto hoje abriga a Casa de Cultura local.
O sobrado recebeu diversas personalidades históricas, entre elas Frei Joaquim do Amor Divino Rabelo, o Frei Caneca, que se abrigou em Caicó em 1824, fugindo das tropas realistas durante a Confederação do Equador. Em seu testamento, datado de 20 de novembro de 1844, o padre revelou que, “por fragilidade humana”, tivera dez filhos, provenientes de relações diversas, todos formalmente reconhecidos como herdeiros. Entre eles destacam-se Manoel Daniel, já falecido, pai de um homônimo, Izabel, Theodora, Alexandrina, Jacinto e Francisco.
Além de sua relevância eclesiástica, Francisco de Brito Guerra destacou-se na política provincial e imperial. Foi deputado-geral entre 1831 e 1833 e, a partir de 1837, senador vitalício do Império. Em 2 de fevereiro de 1835, instalou e presidiu a recém-criada Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte, em um contexto de grande instabilidade política após a Independência. Participou também da resolução da disputa territorial entre o Rio Grande do Norte e a Paraíba sobre a posse do Seridó, cuja definição ficou estabelecida pela Lei de 25 de outubro de 1831 e ratificada em 1835 após intensos debates, garantindo que a região pertencesse ao Rio Grande do Norte.
Reconhecido por seu carisma, senso de responsabilidade e compromisso com o progresso da região, Brito Guerra defendia a construção de açudes para represamento das águas, resumindo sua visão em sua célebre frase: “Esta região somente será feliz no dia em que as águas dos seus rios não chegarem aos oceanos.” Hoje, a casa em que viveu permanece como um símbolo histórico e cultural, preservada como Casa de Cultura, testemunho da memória de um homem que marcou de forma indelével a história do Seridó potiguar e do Rio Grande do Norte.
Comentários
Postar um comentário