JOSÉ BRAZ FILHO (1925-1996)

   



destacou-se como uma das figuras mais expressivas da política e do desenvolvimento de Acari, no Rio Grande do Norte, deixando um legado marcado por sua atuação administrativa, por sua visão empreendedora e por sua profunda vinculação à cultura sertaneja. Nascido em 15 de janeiro de 1925, na Fazenda Acauã, zona rural do município, pertencia a uma das famílias mais tradicionais do Seridó potiguar. Era filho de José Braz de Albuquerque Galvão, o conhecido “Zé Braz Velho do Talhado”, e de Cantídia Auda Pires Galvão, e cresceu em um ambiente de fortes vínculos com a terra, a religiosidade e a vida comunitária, convivendo intensamente com seus irmãos Adalberto, João, Francisco, Natércia, Maria Eleonora, Maria de Lourdes e Cantídia Galvão.

Em 24 de junho de 1944, contraiu matrimônio com Adaltiva Pires Galvão, união que lhe deu estabilidade afetiva e sustentação moral ao longo de sua vida pública. O casal formou uma família sólida, da qual nasceram quatro filhos — José Braz Neto, Jarleno Braz Galvão, Jarbas Braz Galvão e Magnólia Galvão —, que se tornaram o alicerce de sua trajetória pessoal e política. Paralelamente ao ambiente familiar fortalecido, José Braz Filho dedicou-se com afinco à agropecuária e ao comércio, consolidando-se como proprietário de diversas fazendas, entre as quais Soledade, Ponta de Pedra, Flor, Pau Pedra, Machado, Saguim, Serra Verde, Nicolau, Acauã Velha, Sombras Grandes e outras. Atuou como criador de gado, comerciante de algodão e explorador da mineração de scheelita, atividades que evidenciavam sua capacidade empreendedora e seu talento para liderar, qualidades que o conduziram naturalmente à vida pública local.

Ingressou na política em 1951, elegendo-se vereador de Acari, e exerceu dois mandatos como prefeito do município: o primeiro de 1973 a 1977 e o segundo de 1983 a 1988. Em sua primeira administração, Acari recebeu o título de “Cidade Mais Limpa do Brasil”, reconhecimento que traduzia organização, eficiência e zelo pelos espaços públicos. No segundo mandato, promoveu obras e ações de grande alcance social, entre as quais se destacam a construção do Ginásio de Esportes Dr. Jorácio Mamede Galvão, a implantação do “Sopão” durante a grande seca do início dos anos 1980 e a edificação do Centro de Saúde Odilon Guedes. Pavimentou a Rua Dr. José Gonçalves e outras vias da periferia, idealizou uma feira coberta na mesma rua e ergueu a Escola Municipal Terezinha de Lourdes Galvão, além de ampliar creches e unidades escolares, tanto na zona urbana quanto na zona rural. Implementou, ainda, ações significativas de urbanização, com expansão da rede de iluminação pública, contribuindo para a modernização e a melhoria da qualidade de vida em Acari.

Sua relevância, entretanto, ultrapassou os limites da administração municipal. Nas décadas de 1970 e 1980, José Braz Filho destacou-se como grande entusiasta e principal promotor das vaquejadas de Acari, organizando eventos na zona urbana e na zona rural que movimentavam a economia local, fortaleciam o comércio e reafirmavam o vínculo do sertanejo com o gado, o campo e a identidade nordestina. Seu envolvimento com essa manifestação popular, tão profundamente enraizada no imaginário do interior, estendeu-se a diversas cidades do Seridó e do Rio Grande do Norte, confirmando-o como um incentivador incansável das tradições sertanejas.

Descrito pelos contemporâneos como homem íntegro, leal e profundamente comprometido com os interesses de sua terra, fez da política um instrumento genuíno de transformação social. Faleceu em 21 de outubro de 1996, deixando um legado de trabalho, dignidade e serviço público. Sua memória permanece viva no imaginário dos conterrâneos, despertando respeito e admiração entre os que acompanharam sua trajetória e entre aqueles que, mesmo à distância, reconhecem sua grandeza.

A força simbólica de José Braz Filho transcendeu os limites de Acari, tornando-se referência em grande parte do Nordeste. Seu nome, associado à cidade, abria caminhos e despertava cordialidade, como se comprova em inúmeros relatos reunidos por Joselito Jesus de Araújo. Em Arapiraca, Alagoas, um senhor de aparência sertaneja ofereceu-lhe um almoço generoso — comparado à mesa farta do próprio coronel — ao saber que o viajante era de Acari e, portanto, conterrâneo de Zé Braz. Em Bezerros, Pernambuco, durante uma abordagem policial, a intervenção de um transeunte identificado como “Brito Véi”, que prontamente reconheceu a origem acariense pela placa da D20, resultou na liberação imediata dos viajantes, sob a justificativa de que “gente de Zé Braz é minha gente também”. Em Cascavel, no Ceará, numa roda de dominó, o nome de Acari novamente evocou a figura do coronel, despertando perguntas e lamentações sobre sua ausência. Mesmo no Maranhão, em Icatu, durante uma festa de bumba-meu-boi, um homem recordou com entusiasmo sua passagem pela casa de Zé Braz em Acari, reforçando a rede de amizades que o coronel semeou pelo Nordeste — não apenas por sua atuação política, mas pela sinceridade que imprimia em cada relação.

A grandeza de José Braz Filho refletia-se na forma como cultivava amizades e alianças duradouras, e dizem que seu filho caçula, Jarbas Braz, seguiu-lhe os passos, espalhando a mesma semente de cordialidade e lealdade. A percepção viva desse legado aparece, de modo eloquente, nos comentários publicados no blog de Joselito Jesus de Araújo. Magnólia Fonseca recorda a dignidade com que Zé Braz e Dona Adaltiva educaram os filhos, bem como o respeito que ele demonstrava até mesmo aos adversários. Paula, filha de João Muniz, emociona-se ao rever sua fotografia, lembrando a importância do coronel para sua família. Iris Brandão de Araújo Leal, a querida Irinha, ex-Promotora de Justiça, rememora o apoio que recebeu do então prefeito, corroborando sua fama de político de valor. Marise Galvão evoca um carnaval inesquecível vivido em uma casa alugada por Zé Braz, revelando seu lado alegre e humano; Goretti e Das Virgens expressam o orgulho de serem conterrâneas do coronel; e Antão Lopes de Araújo Filho, o popular Lopinho, lamenta a diferença entre a dedicação exemplar de Zé Braz e a postura de alguns administradores atuais.

Familiares também reforçam essa imagem: José Braz Neto agradece a homenagem ao “pai terno, carinhoso e original”; Bruno Galvão emociona-se ao lembrar o afeto do avô; Andréa Braz ressalta sua sabedoria e equilíbrio; Rosalia Maria recorda como o nome de Zé Braz abria portas em outras cidades; Edson Assis agradece o apoio dado aos estudantes acariense, especialmente no transporte universitário; e Bruno de Dual relata o episódio em que Zé Braz, com coragem, salvou a vida de um gerente de banco, reiterando sua lealdade aos amigos. Já Leonardo Braz, neto do coronel, rememora a infância marcada pela liderança e generosidade do avô, que sabia acolher até mesmo aqueles que não lhe eram simpáticos.

A reconstrução histórica da família Braz, ancorada na tradição oral, em registros biográficos e na escrita memorialista, revela uma linhagem intrinsecamente ligada à geografia e à evolução social de Acari. Essa saga não se limita à sucessão genealógica, mas delineia um mapa de influências, propriedades e legados que atravessam gerações, remontando à figura emblemática do patriarca Francisco Braz — o conhecido Chico Braz —, estabelecido na localidade de Cauã. A memória coletiva o eternizou como símbolo de autoridade e vínculo telúrico com a terra, frequentemente lembrado sob a sombra do grande “chapelão” que compunha sua imagem. A casa do patriarca, distinguida por um jambuzeiro notável à porta, tornou-se marco da história local, transbordando sua função doméstica e assumindo o papel de ponto de referência do grupo familiar. Após sua morte, o imóvel testemunhou diversas fases, passando pelas mãos de Seu Diri, Seu Bilé e Dr. Aroldo, até retornar à descendência direta, sendo atualmente habitado por Jarbas, neto de Francisco e filho de Zé Braz, que mantém vivo, naquele solo, o elo ancestral.

A mobilidade territorial dos descendentes de Chico Braz, especialmente o deslocamento de Zé Braz de Cauã para o Talhado, representou a expansão estratégica da presença familiar no município. Dessa nova base, irradiaram-se influências e alianças ampliadas por seus filhos: Francisco, o “Zé Braz Novo”, que alcançou a prefeitura de Acari; Adalberto, que reforçou laços regionais ao casar-se com a filha de Mário Gonçalo de Medeiro; João Braz, que se dedicou à agronomia; e outros membros da família cuja trajetória, embora marcada por conquistas, também conheceu a dor das perdas precoces, como a de Chiquinho — possivelmente formado em Medicina — e a do próprio João Braz. Entre todos, coube às filhas a longevidade mais marcada daquele ramo familiar.

A consolidação econômica da família Braz passou pelo fortalecimento de seu patrimônio fundiário. A “A Solidade”, adquirida de Manuel Petronilo por Zé Braz Filho, exemplifica essa ampliação das propriedades, que se somavam ao simbolismo afetivo de Cauã e à centralidade do Talhado. Em tempos recentes, o destino econômico da linhagem encontrou novo impulso quando as terras de José Braz Neto revelaram-se ricas em recursos minerais, transformando o capital fundiário tradicional em fonte expressiva de prosperidade contemporânea.

Entretanto, a sobrevivência do legado familiar transcende o acúmulo de bens materiais. As gerações atuais, representadas por Jarbas e, de modo especial, por seu filho Leonardo, demonstram profundo compromisso com o patrimônio imaterial. Leonardo, advogado residente na região, assumiu o papel de guardião da memória familiar e, ao encomendar a elaboração de um livro sobre a história dos Braz, deu forma escrita à narrativa que, durante décadas, circulou pela oralidade.

Assim, a trajetória da família Braz espelha as transformações sociais de seu tempo: inicia-se com a figura telúrica de Francisco Braz em Cauã, expande-se politicamente e territorialmente com Zé Braz e seus descendentes, consolida-se economicamente com os recursos minerais descobertos por Zé Braz Neto e, por fim, perpetua-se intelectualmente pela iniciativa preservacionista de Leonardo. Do jambuzeiro do patriarca ao livro que nasce pelas mãos de seu bisneto, mantém-se firme a tradição de uma linhagem cujo legado permanece tão sólido quanto as terras que ocupou.

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