CHICO DE MANOL VERMELHO

 Francisco das Chagas Silva, que todo mundo conhecia por Chico de Manoel Vermelho, veio ao mundo em 1958, e foi criado no sítio Saco dos Pereira, vizinho à Fazenda Pinturas, lá em Acari, no Sertão do Seridó. Era filho de Manoel Pereira da Silva, o Manoel Vermelho, nascido em 1931 e falecido em 2017, e de Josefa Etelvina da Silva, que viveu de 1929 a 1988 e que todos chamavam com carinho de Tia Zefinha.

Pelo ramo paterno, descendia de Agostinho Cassiano Pereira de Araújo (1896–1984) e de Ana Maria de Santana. Pela veia materna, era ligado à antiga família do Sargento-Mor Manuel Esteves de Andrade, personagem lendário da tradição seridoense, a quem se atribui o célebre episódio em que enfrentou uma investida dos chamados “caboclos brabos”, nas proximidades da Pindágua, fato que, segundo a memória popular, teria motivado a construção da capela de Nossa Senhora Daguia que é a atual Igreja de Nossa Senhora do Rosário em Acari.

E quando se contempla a antiga Igreja não se avista apenas um templo erguido por volta de 1737 pela fé dos ancestrais de Chico de Manoel Vermelho, vê-se, sobretudo, uma das mais antigas testemunhas da formação histórica do Sertão do Seridó. Suas paredes com traços do barroco guardam a memória de um povo que abriram caminhos naquela ribeira. 

Já no ano de 2016, numa tarde qualquer, sob o alpendre da Fazenda Jacobina, situada na antiga região do Arisco de Cima, na divisa entre Macaíba e São Gonçalo do Amarante, teve lugar uma conversa daquelas que o Sertão do Seridó costuma guardar na memória. A propriedade pertencia ao médico, escritor e prosador Paulo Bezerra Balá (1933-2017), também proprietário da tradicional Fazenda Pinturas, em Acari, repassador das histórias da terra e aos causos que atravessam gerações.

Enquanto a conversa corria frouxa, sobre lembranças, causos antigos e referências a um tempo que já ia longe, Chico Pereira recompunha, pouco a pouco, fragmentos de um passado atravessado por gerações e foi nesse ambiente de lembranças que Chico de Manoel Vermelho trouxe à tona preciosos relatos sobre dois personagens da ciranda de conversas do povo do Saco dos Pereira. 

O primeiro foi Félix de Araújo Pereira (1862–1937), conhecido nos sertões como Félix da Pendanga, filho de Félix de Araújo Pereira (1818–1905), o afamado Félix dos Garrotes, patriarca cuja descendência se espalhou pelas ribeiras e fazendas do Seridó. O segundo foi Jayme Pereira de Araújo (1911–1977), casado com Eunice Euzébia de Araújo (1916–2001), lembrado como o patriarca dos chamados galegos de Jayme, do Saco do Olho d’Água. Filho de Hermógenes Pereira de Araújo (1884–1954) e de Vicência Otília de Araújo (1888–1944).

A notícia do falecimento de Chico repercutiu intensamente no meio dos descendentes do povo do Saco dos Pereira e adjacências. Para aqueles que conviveram com ele, sua partida não representou apenas a morte de um seridoense, mas a ruptura de um elo, certo modo, cultural, presente às gerações passadas, pois na Ribeira do Acauã, onde a memória do povo simples do sítio é construída pela transmissão oral e pelas proseadas de alpendre.

O vaqueiro Chico não era apenas um guardião de lembranças familiares e de histórias da Ribeira da Acauã. Com boa prosa e memória afiada, gostava de rememorar os causos que ouvira dos mais velhos e aqueles que ele próprio testemunhara ao longo da vida. Demonstrava também especial interesse pelos episódios ligados ao cangaço, tema que sempre despertou sua curiosidade e que acompanhava com atenção nos encontros e eventos dedicados à cangacologia.

Foi justamente esse interesse que o levou a incentivar seu patrão e amigo, o doutor Paulo Balá, a empreender uma viagem até Aracaju para conhecer a filha de Virgulino Ferreira da Silva, o célebre Lampião. Para Chico, ouvir de perto os relatos de alguém tão diretamente ligado à história do cangaço era oportunidade rara, capaz de aproximar ainda mais o presente de um passado que continua povoando o imaginário popular.

Chico de Manoel Vermelho cultivava uma verdadeira paixão pelas relíquias do passado. Gostava de colecionar móveis antigos, utensílios já fora de uso e objetos que carregavam consigo as marcas do tempo. Considerando peças de mobiliário colonial, fotografias envelhecidas, artefatos ligados ao universo do cangaço e lembranças recolhidas ao longo da vida, preservava um objeto pelo qual nutria especial estima que era um rádio ABC Canarinho, um dos modelos mais emblemáticos produzidos pela tradicional ABC Rádio e Televisão S.A., fabricante que marcou presença em inúmeros lares brasileiros nas décadas de 1960 e 1970 com o célebre slogan “A Voz de Ouro”.

Mais do que um simples aparelho de rádio, aquele ABC Canarinho era um depositário de memórias. O equipamento lhe fora presenteado por Jusilano de Eliseu e trazia consigo uma recordação que se confundia com a vida cotidiana de Acari. Durante mais de meio século, o aparelho ocupou lugar reservado no antigo bar de Seu Eliseu, situado na Travessa José Evaristo, onde acompanhou conversas, notícias, programas musicais, transmissões esportivas, tipo Fla/Flu ou até o famoso Mengo/Vasco e os acontecimentos do país como um todo. 

Ao chegar às mãos de Chico de Manoel Vermelho, o rádio ganhou nova morada e passou a integrar o conjunto de objetos cuidadosamente preservados por ele. Cercado de móveis antigos e peças carregadas de tradição. De modo que o ABC Canarinho continuou a exercer sua mais nobre função que era manter vivas as lembranças de um tempo em que as notícias viajavam pelas ondas do rádio e chegavam aos ouvidos atentos dos sertanejos reunidos nas bodegas e nos bares da cidade. 

Eram tempos em que estabelecimentos como os de Ambrósio, Gabriel e Eliseu, em Acari, transcendiam a simples atividade comercial para se converterem em verdadeiros espaços de convivência, amizade e sociabilidade. Mais do que pontos de encontro, esses lugares constituíam autênticos centros de construção da memória coletiva seridoense, onde a palavra falada circulava livremente e o rádio, soberano em seu canto, ligava o sertão ao restante do mundo. 

Preservado por Chico de Manoel Vermelho, o velho ABC Canarinho tornou-se não apenas uma peça de coleção, mas um símbolo material de uma época em que a vida corria mais vagarosa e as relações humanas encontravam, na prosa cotidiana, seu principal elo de união. O rádio e Chico quase da mesma idade, atravessaram diferentes épocas, permitindo-lhes testemunhar transformações profundas na comunidade do Saco dos Pereira. 

Sua partida, portanto, não se restringe à esfera familiar. Ela suscita uma necessidade histórica que é a de registrar, confrontar e preservar as lembranças que, sem testemunhas, correm o risco de se dissolverem no terreno impreciso da lenda.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

IGNEZ SEGUNDA MARÇAL, A FILHA DE BASÍLIO FERREIRA DOS GARROTES

DR. JOSÉ BEZERRA DE ARAÚJO

JOÃO PEREIRA DE MEDEIROS (1935-2025)