CHICO DE MANOL VERMELHO
Francisco Pereira, conhecido por todos como Chico de Manoel Vermelho, nasceu em meados da década de 1950, lá no sítio Saco dos Pereira, vizinha a Fazenda Pinturas, em Acari, Seridó. Era filho de Manoel Pereira da Silva (1931–2017), o dito Manoel Vermelho, e de Josefa Pereira, carinhosamente chamada de Tia Zefinha.
Pelo ramo paterno, descendia de Agostinho Cassiano Pereira de Araújo (1896–1984) e de Ana Maria de Santana. Pela veia materna, era ligado à antiga família do Sargento-Mor Manuel Esteves de Andrade, personagem lendário da tradição seridoense, a quem se atribui o célebre episódio em que enfrentou uma investida dos chamados “caboclos brabos”, nas proximidades da Pindágua, fato que, segundo a memória popular, teria motivado a construção da capela de Nossa Senhora Daguia que é a atual Igreja de Nossa Senhora do Rosário em Acari.
E quando se contempla a antiga Igreja não se avista apenas um templo erguido por volta de 1737 pela fé dos ancestrais de Chico de Manoel Vermelho, vê-se, sobretudo, uma das mais antigas testemunhas da formação histórica do Sertão do Seridó. Suas paredes com traços do barroco guardam a memória de um povo que abriram caminhos naquela ribeira.
Já no ano de 2016, numa tarde qualquer, sob o alpendre da Fazenda Jacobina, situada na antiga região do Arisco de Cima, na divisa entre Macaíba e São Gonçalo do Amarante, teve lugar uma conversa daquelas que o Sertão do Seridó costuma guardar na memória. A propriedade pertencia ao médico, escritor e prosador Paulo Bezerra Balá (1933-2017), também proprietário da tradicional Fazenda Pinturas, em Acari, repassador das histórias da terra e aos causos que atravessam gerações.
Foi naquele ambiente de lembranças e reminiscências que Chico de Manoel Vermelho, trouxe à tona preciosos relatos sobre dois personagens que deixaram marcas profundas na memória dos sertões do Seridó. O primeiro foi Félix de Araújo Pereira (1862–1937), Félix da Pendanga. O segundo foi Jayme Pereira de Araújo (1911–1977), reconhecido como o patriarca dos chamados galegos de Jayme lá do Saco do Olho d’Água.
Enquanto a conversa corria mansa, entre recordações e referências aos velhos tempos, Chico Pereira recompunha fragmentos de uma história que atravessou gerações, resgatando nomes, vínculos familiares e acontecimentos que ajudaram a moldar a identidade de uma das mais tradicionais famílias sertanejas do Seridó.
A notícia do falecimento de Chico repercutiu intensamente no meio de seus contemporâneos e familiares. Para aqueles que conviveram com ele, sua partida não representou apenas a morte de um seridoense, mas a ruptura de um elo precioso que liga o presente às gerações passadas, pois na Ribeira do Acauã, onde a memória do povo simples do sítio é construída pela transmissão oral e pelas proseadas de alpendre, vaqueiros como Chico de Manoel Vermelho constituem verdadeiros arquivos raros.
Sua existência atravessou diferentes épocas, permitindo-lhe testemunhar transformações profundas na comunidade do Saco dos Pereira. Durante muitos anos, trabalhou cuidando do gado do doutor Paulo Bezerra Balá, médico, escritor e intelectual amplamente conhecido no Rio Grande do Norte, circunstância que lhe proporcionou contato privilegiado com histórias, personagens e acontecimentos que marcaram, tanto a sua região origem como a de Macaíba.
Sua morte, portanto, não se restringe à esfera familiar. Ela suscita uma necessidade histórica que é a de registrar, confrontar e preservar as lembranças que, sem testemunhas, correm o risco de se dissolverem no terreno impreciso da lenda.

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