RADIR PEREIRA DE ARAÚJO

 

 Filho de Aproniano Pereira de Araújo e Maria Augusta Pereira, Radir Pereira de Araújo nasceu em 5 de abril de 1920, em Currais Novos, no coração do Seridó potiguar, região que, há séculos, projeta no cenário político brasileiro nomes de forte presença e rara tenacidade. Pertencente a uma linhagem marcada pela atuação pública, Radir descende de figuras expressivas como o Presidente da Província Tomás de Araújo Pereira e o Deputado Tomaz Pereira de Araújo, personagens que, no século XIX, já inscreviam o nome da família entre as mais influentes da política nordestina. Essa tradição genealógica, tecida pela persistência sertaneja, encontrou nele continuidade e vigor. Sua carreira teve início na vereança de Currais Novos, seguindo o caminho que seus antepassados abriram com sobriedade e firmeza. Em 1958, foi eleito Deputado Estadual pelo PTB, sendo sucessivamente reconduzido em 1962 e 1966. Durante três legislaturas, consolidou-se como uma das vozes mais atentas às demandas do interior e às complexidades políticas do Estado. Encerrado esse ciclo de doze anos na Assembleia Legislativa, voltou-se à disputa majoritária e, em 1982, foi eleito Vice-Governador do Rio Grande do Norte na chapa encabeçada por José Agripino Maia. Em 1985, alinhou-se à candidatura de Tancredo Neves, gesto que traduzia seu compromisso com a redemocratização. No ano seguinte, em 14 de maio de 1986, assumiu o Governo do Estado, após a desincompatibilização de Agripino, transmitindo o cargo, em 15 de março de 1987, ao seu sucessor, Geraldo Melo. Em 1994, manifestou apoio ao então Presidente Fernando Henrique Cardoso, reafirmando sua presença ativa no debate nacional. A vida familiar de Radir também guardava as marcas de suas raízes. Foi casado com Aida Ramalho Pereira de Araújo, falecida em 1977, com quem teve quatro filhos, cuja descendência se estende por onze netos e quatro bisnetos, preservadores da memória doméstica e política de seu nome. Radir morreu em Natal, em 7 de junho de 2000, recebendo homenagens que traduziram seu prestígio: o velório contou com a presença do Presidente Fernando Henrique Cardoso, que decretou luto oficial de três dias em todo o país. A trajetória desse seridoense insere-se na ampla contribuição de sua região à política potiguar. Há 188 anos, o Seridó já fornecia à província um de seus dirigentes máximos: o acariense Tomás de Araújo Pereira, figura central entre as famílias influentes que moldaram os rumos do Rio Grande do Norte no início do século XIX. Desde então, onze dos cinquenta e seis governadores do Estado nasceram no Seridó, revelando a força política de um território marcado pela austeridade, pela cultura do esforço e pelo sentido comunitário. Caicó desponta como a cidade que mais governadores deu ao Estado — José Augusto Bezerra de Medeiros, Antônio Fernandes Dantas, Monsenhor Walfredo Gurgel, Vivaldo Costa e, simbolicamente, Wilma de Faria, que adotou Caicó como sua terra afetiva. Serra Negra do Norte figura em segundo lugar, com Juvenal Lamartine, Dinarte Mariz e Quintino Clementino de Barros, este último ocupando o cargo por cinco dias em 1935. Currais Novos, terra natal de Radir, legou ao Estado dois governadores: José Cortez Pereira de Araújo, de quem a história costuma lembrar com admiração e polêmica, e o próprio Radir Pereira, que representou o município no governo durante o conturbado período de transição democrática. Além da vida pública, Radir também se dedicou ao empreendedorismo, consolidando-se como empresário de destaque, particularmente com a expansão da rede de lojas “A Sertaneja”, símbolo de modernização comercial no interior potiguar. Seu nome, portanto, transita entre a política e o mundo dos negócios, em perfeita sintonia com a versatilidade própria das lideranças regionais que moldaram o século XX no Nordeste. Um dos testemunhos mais marcantes sobre sua personalidade e sua inserção nos debates de seu tempo encontra-se no relato memorialístico “Uma noite, na casa de Radir Pereira”, de François Silvestre, publicado no Blog Carlos Santos. A narrativa resgata um episódio de 1978, em plena ditadura militar, quando a campanha para o Senado expunha tensões entre o MDB autêntico e os acordos celebrados pelo grupo hegemônico do partido, então conduzido pela Família Alves. Nesse contexto, Radir emergiu como candidato de resistência, apoiado por Odilon Ribeiro Coutinho e pelo grupo autêntico do MDB, em oposição ao “acordão” que favorecia Jessé Freire, o nome do regime. O ambiente descrito por François Silvestre — a casa de Radir tomada por delegados, jornalistas, assessores, curiosos, puxa-sacos e espiões — revela a intensidade de um momento político que misturava euforia, vigilância e desconfiança. No centro da narrativa está o acalorado embate verbal entre o próprio François, Cortez Pereira e Odilon Ribeiro Coutinho, discussão que, entre ironias, acusações e farpas, desnuda contradições e ressentimentos acumulados desde os anos mais duros da repressão. François recorda sua prisão pelo DOPS em 1974 e acusa Cortez de ter servido à ditadura; Cortez rebate; Odilon intervém; todos, ao fim, acabam “enchiqueirados” numa mesa reservada, onde, entre história, filosofia e bebida farta, as tensões encontram algum desfecho momentâneo. Esse episódio, repleto de densidade humana e política, revela o ambiente complexo que moldou a atuação de Radir Pereira, cuja casa, naquela noite, tornou-se palco de debates que ultrapassavam o destino eleitoral de um candidato e mergulhavam na própria crise moral que marcava o fim dos anos de exceção. Embora não tenha vencido a eleição para o Senado, Radir triunfou em Natal por quase quinze mil votos de maioria, enfrentando, sozinho, o poder combinado do governo federal, do governo estadual, da prefeitura da capital, das federações de indústria e comércio, e das tradicionais oligarquias Alves e Maia — uma vitória simbólica contra o sistema estabelecido. A vida de Radir Pereira de Araújo, portanto, se inscreve entrelaçada às grandes forças que moldaram o Rio Grande do Norte no século XX: a tradição genealógica do Seridó, a política estadual em suas épocas mais turbulentas, o embate entre ditadura e redemocratização, o empreendedorismo do comércio interiorano e a memória cultural preservada em relatos que atravessam o tempo. Seu nome permanece como elo entre passado e presente, entre o sertão e o Estado, entre a história familiar e a história pública.


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