FRANCIÉLIO BEZERRA DE MEDEIROS

 


conhecido no meio político e social como Tino, construiu uma trajetória singular na história legislativa de Currais Novos, marcada pela longevidade, pela lealdade política e por uma concepção do mandato parlamentar profundamente enraizada no contato direto com o povo. 

Ingressou na vida pública ainda jovem, aos 26 anos de idade, convidado por seu padrinho político e antigo patrão no Armazém Floresta, Alcindo Salustiano, figura vinculada ao sistema governista da época e à antiga Arena. 

Sua entrada na política deu-se mais por senso de dever cívico do que por ambição pessoal, em um tempo em que o exercício do mandato de vereador não era remunerado por subsídio fixo, mas apenas por um jeton simbólico, sendo a atividade percebida como expressão de civismo e patriotismo.

Sua primeira campanha eleitoral, em 1973, foi atípica e quase improvisada. Substituindo Rivaldo Pereira Sobrinho, que desistira de concorrer à reeleição, Tino percorreu comunidades rurais e residências urbanas apresentado diretamente pelo seu padrinho político aos eleitores tradicionais do grupo. 

Sem experiência prévia e com campanha modesta, surpreendeu ao figurar como o quinto candidato mais votado, resultado que refletia tanto a força política de Alcindo Salustiano quanto a boa receptividade pessoal do jovem candidato. A partir desse pleito, iniciou-se uma carreira contínua que se estenderia por duas décadas ininterruptas no Legislativo municipal.

Ao longo de vinte anos consecutivos, Tino exerceu quatro mandatos de vereador, atravessando diferentes conjunturas políticas e partidárias. Inicialmente filiado à Arena, alinhou-se a lideranças como Dr. José Bezerra e Gilberto Lins. 

Quando este último rompeu com o grupo governista e migrou para o PMDB, Tino o acompanhou sem hesitação, afirmando, retrospectivamente, que sempre pautou sua vida pública pela fidelidade às lideranças às quais se vinculava. 

Essa postura se refletiu também em seu desempenho eleitoral, pois, já pelo PMDB, alcançou expressiva votação, tornando-se o terceiro vereador mais votado em uma de suas eleições, com 523 votos.

O episódio mais emblemático e controverso de sua trajetória ocorreu durante a eleição para a presidência da Câmara Municipal, momento que expôs, de forma quase dramática, as complexas engrenagens da política local. A Casa encontrava-se rigorosamente dividida entre cinco vereadores do PMDB e cinco do PDS. 

O candidato peemedebista era César Batista; o adversário, José Dantas. Em caso de empate, o critério regimental da idade favoreceria César Batista. No entanto, durante a votação, deu-se a inesperada reviravolta: Tino recebeu seis votos e foi proclamado presidente, para sua própria surpresa. 

Ele afirma que votara em César Batista, conforme a orientação de seu partido, e que não tinha conhecimento prévio de qualquer articulação em seu favor.

Somente depois veio a saber que a manobra fora engendrada por Patrício Cortez, ligado à prefeitura, que convencera o vereador Tião do Padre, do PDS, a votar em Tino como forma de quebrar o impasse e impedir a vitória do candidato peemedebista. 

A repercussão foi imediata e tumultuada. No plenário, Tino foi acusado de traição, comparado a Judas Iscariotes e duramente atacado por colegas. Ele sempre rejeitou tais acusações, sustentando que jamais aceitara participar de acordo prévio e que, se soubesse da articulação, teria recusado a candidatura. 

Apesar da crise, manteve-se fiel a Gilberto Lins, preservando sua coerência política em meio ao episódio que marcou definitivamente sua passagem pela presidência da Câmara.

No exercício da função, Tino empenhou-se em fortalecer a autonomia institucional do Poder Legislativo. Conseguiu dotar a Câmara de seu primeiro carro oficial e promoveu a separação da contabilidade da Casa em relação à prefeitura, rompendo uma prática que subordinava financeiramente o Legislativo ao Executivo. 

Sua atuação não se limitou ao plano administrativo. Em sua comunidade de origem, o Sítio Maniçoba, liderou a mobilização de pais de alunos e conseguiu viabilizar a construção da Escola São Francisco de Assis, consolidando uma ação concreta de alcance social duradouro.

Convencido de que o vereador deveria ser, acima de tudo, fiscal e porta-voz da população, criou o programa radiofônico “A Voz da Câmara”, no qual denunciava irregularidades e dava publicidade a problemas da administração municipal. 

Um dos episódios mais lembrados foi a denúncia envolvendo o matadouro público, onde se utilizava uma pedra de cinco quilos para pesar apenas um quilo de carne, prática que revoltava marchantes e consumidores. 

Para Tino, essa atuação estava em consonância com a lição do ex-governador Cortez Pereira, segundo a qual o vereador é “o vizinho mais próximo do povo”, acessível e presente, ao contrário das figuras mais distantes do poder estadual ou federal.

Sua carreira não esteve isenta de embates. Em determinado momento, enfrentou uma tentativa de cassação de mandato, liderada pelo vereador Reginaldo Bezerra, sob a acusação de excesso de faltas às sessões ordinárias. A defesa foi conduzida pelo jurista Varela Barca, de Natal, que demonstrou que a norma invocada se aplicava à Constituição Federal, relativa à Câmara dos Deputados e ao Senado, não ao regimento municipal então vigente. 

O processo acabou arquivado, e Tino seguiu no exercício de seu mandato, reafirmando um estilo político que ele próprio definia como educado e moderado, em contraste com a agressividade verbal comum a outros parlamentares da época.

Sua atuação extrapolou os limites do município. Foi um dos poucos vereadores de sua geração a participar de congressos nacionais de parlamentares e, por intermédio de José Adécio, conhecido como Bico Doce, teve a oportunidade de encontrar figuras de projeção nacional, como Roberto Marinho, presidente da Rede Globo. 

Em Brasília, integrou comitivas que dialogaram com ministros, chegando a apresentar redação solicitando que uma siderúrgica estratégica para o Nordeste não fosse fechada, gesto que revela sua preocupação com temas estruturais que transcendiam a política local.

Encerrados os vinte anos de mandato legislativo, Tino optou por não mais disputar eleições, embora não tenha se afastado da vida pública. Exerceu o cargo de Secretário de Obras durante quatro anos no governo do prefeito Gilberto Lins, foi Coordenador de Agricultura na gestão de Geraldo Gomes e desempenhou função de coordenação no governo estadual de Geraldo Melo. 

Ainda assim, afirma de forma categórica que encerrou definitivamente sua carreira político-eleitoral, sem qualquer pretensão a novos cargos ou mandatos, satisfeito com o caminho percorrido e com a estabilidade profissional de sua família.

Hoje, mantém-se afastado das disputas, mas preserva relações cordiais e amizades no meio político, sendo lembrado como um vereador de longa duração, leal às suas convicções e atento às demandas populares. 

Sua trajetória exemplifica uma forma de fazer política assentada na proximidade com a comunidade, na fidelidade pessoal e na crença de que o mandato legislativo, exercido com retidão, pode ser instrumento eficaz de representação e serviço público, in utilitatem communem.

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