ADAILTON EDUARDO DA SILVA
Há vidas que não se medem pelo acúmulo de bens, cargos ou títulos, mas pela capacidade rara de se oferecerem inteiras ao outro, de se doarem sem cálculo, como quem entende que viver é, antes de tudo, servir.
São existências voltadas para fora, moldadas pelo gesto cotidiano da entrega, nas quais o amor não se anuncia em discursos, mas se confirma na constância silenciosa do fazer. Esta reflexão nasce desse tipo de vida e procura alcançar a essência da trajetória de um homem cuja grandeza se assentava na simplicidade, cuja força residia na dedicação incondicional a uma arte e a uma comunidade.
Para compreender o sentido profundo de sua caminhada, é preciso, antes, escutar a poesia que parece ter acompanhado seus passos, como um fio invisível a costurar escolhas e renúncias: “De que feito afinal é este seu coração e que espécies de amor você deseja dar? Se me demais, me apaixo até o chão. Ainda fico a dever sem lhe contentar. E o que mais quer você, se tudo, se tudo já lhe dei? O que resta de mim, sorrindo lhe entreguei. Se do pranto do olhar nem mesmo tenho mar, uma gota sequer para chorar. Só minha vida eu não lhe dou…”.
Nesse fragmento de melancolia e entrega absoluta pulsa a pergunta que atravessa toda uma vida dedicada ao outro e o que leva alguém a se doar tão completamente, a ponto de poder afirmar, sem amargura, que tudo o que restava de si foi entregue com um sorriso?
É nessa interrogação que se encontra o ponto de partida para compreender Adailton Eduardo da Silva, conhecido por todos, com afeto e familiaridade, como 'Gata', um homem cujo legado não se mede pelo que levou consigo, mas pelo que deixou plantado na alma de sua terra.
A sua partida instaurou em Acari um luto peculiar, profundo e contido, um sentimento que não se expressa em alarde, mas numa quietude carregada de sentido. Há silêncios que não são ausência de som, mas ausência de alguém, e o que se percebe na cidade é exatamente isso: um vazio que não grita, mas ecoa.
A falta de 'Gata' produziu um silêncio estranho, como se o tempo tivesse perdido o compasso, como se algo essencial ao ritmo cotidiano tivesse sido subitamente retirado. A metáfora não é fortuita, pois ele foi, por décadas, uma espécie de metrônomo da vida cívica e cultural de Acari, um ponto de referência que assegurava ordem, continuidade e integração.
Sua ausência não é apenas a de um acariense estimado, mas a de uma batida fundamental que ajudava a organizar a experiência coletiva, e é por isso que, para honrar sua memória, torna-se necessário revisitar quem foi o homem cuja falta se faz ouvir de maneira tão intensa.
A música, para Adailton Eduardo da Silva, nunca foi mero ofício ou passatempo ocasional. Era, antes, um instrumento de ligação com o mundo, a principal forma de servir e de se colocar à disposição da comunidade.
Mais do que músico talentoso, tornou-se uma verdadeira instituição viva, cuja presença se desdobrava em dois planos complementares: o da vida pública, marcada pela disciplina rigorosa do tarol, e o da intimidade, revelada na sensibilidade serena do violão.
Na paisagem sonora de Acari, sua imagem pública está indissoluvelmente ligada ao tarol que empunhava com firmeza e responsabilidade. Aquele instrumento, em suas mãos, não era apenas fonte de som, mas símbolo de compromisso.
Em cada procissão, desfile ou cerimônia, 'Gata' assumia o papel de guardião do ritmo, consciente de que sua função ultrapassava a execução técnica, pois cabia-lhe sustentar a ordem, a solenidade e a coesão dos eventos comunitários. Sua presença inspirava confiança, pois significava constância, precisão e respeito pelos demais músicos, sobretudo os novatos.
Esse compromisso com a cultura local se materializou de forma definitiva quando participou juntamente com Dodó, Chaguinha de Pilóia, Netinho, Maestro Pinta e outros da fundação da Filarmônica Maestro Felinto Lúcio Dantas, gesto que o inscreve não apenas como integrante, mas como construtor de um legado institucional destinado a atravessar gerações.
Fora das formações, dos uniformes e dos rituais oficiais, era o violão que revelava o homem em sua dimensão mais íntima. Ali surgia um intérprete sensível, dono de um canto despojado de artifícios, que não buscava impressionar, mas comunicar.
Cantava com verdade, sem excessos, como quem não precisava provar nada a ninguém. Sua música brotava do vivido, do chão batido da experiência, da memória afetiva do nosso sertão, e por isso carregava uma profundidade serena, feita de simplicidade e honestidade.
No violão, 'Gata' deixava a alma falar diretamente, compartilhando histórias, emoções e silêncios com uma autenticidade que tocava fundo aqueles que o escutavam. Mas, por mais marcante que fosse sua atuação musical, tanto na esfera pública quanto na privada, talvez o impacto mais duradouro de sua presença tenha se dado num plano ainda mais sutil, humano e pedagógico, onde o ensino se fazia sem palavras.
O verdadeiro legado de um homem raramente se encontra nos registros formais ou nas homenagens oficiais. Ele se revela, sobretudo, nas vidas que foram moldadas pelo convívio, nos gestos aprendidos por observação, nos valores assimilados quase sem perceber.
No caso de 'Gata', sua obra maior foi precisamente essa, invisível aos documentos, mas profundamente gravada na experiência de quem com ele conviveu. Ela se manifesta nos olhares atentos dos músicos mais jovens, na disciplina incorporada sem gritos nem imposições, no respeito pelo coletivo aprendido pela convivência diária.
'Gata' ensinava sendo. Sua pedagogia não se apoiava em discursos ou reprimendas, mas na coerência entre palavra e ação, na constância do exemplo. Ele personificava a dedicação, o compromisso e a responsabilidade, e esses valores eram absorvidos naturalmente por aqueles que o cercavam.
Liderava sem autoritarismo, mostrando que a excelência nasce do respeito e da perseverança. O testemunho de Netinho de Pinta, que esteve à frente da banda, traduz com simplicidade essa dedicação quase absoluta ao afirmar que, no período em que comandou a filarmônica, 'Gata' foi um dos que mais se entregaram, raramente faltando a uma tocata. Nessa constância silenciosa reside a força de um ensinamento que continua a reverberar.
As vozes de Acari, ao se erguerem em uníssono, oferecem a medida exata do impacto dessa vida. São depoimentos que, juntos, compõem um todo de respeito, gratidão e afeto.
Antão Lopes reconhece que sua partida deixa um vazio material imenso; Toinho Medeiros afirma, sem exagero, que ele marcou uma época que não se repetirá. Memórias atravessam décadas, como a de Rosa Azevedo, que recorda o jovem 'Gata' tocando violão e cantando, ainda menino, enquanto outros resumem sua figura em palavras que condensam admiração e mito, chamando-o simplesmente de lenda.
Amadeu Santana, ao refletir sobre a própria homenagem, percebe que ela transforma a despedida em memória viva e reafirma a permanência de quem ensinou, uniu e marcou gerações. Essas vozes, diversas em origem e idade, convergem numa certeza comum, pois embora a dor da perda seja individual, o reconhecimento do legado de Adailton Eduardo da Silva é sólido e duradouro.
Alguns homens passam, mas 'Gata' permanece. Permanece porque sua presença foi semeada no coração da cidade e continua a florescer no cotidiano de quem o conheceu. Permanece na filarmônica que ajudou a fundar e que segue formando músicos, mantendo vivo o pulso cultural da comunidade. Permanece no som que ainda ecoa nos instrumentos daqueles que aprenderam com ele não apenas a tocar, mas a compreender a música como forma de serviço. Permanece, sobretudo, na memória cultural de um povo que aprendeu a se ouvir através de seu compasso firme, de sua disciplina silenciosa e da honestidade de seu canto.
O silêncio deixado por sua partida não é vazio, mas espaço de ressonância, uma pausa carregada de lembrança, onde ainda se escuta, com nitidez, o som de uma vida inteira dedicada à música, ao exemplo e à permanência.

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