ANTÔNIO MACEDO DA SILVA (n. 1952)
Nesta síntese e análise apresentamos, de forma sensível e documental, a trajetória do sanfoneiro, residente em Currais Novos há cerca de quatro décadas, cuja vida é marcada por uma profunda transformação profissional e existencial.
Consideramos o seu próprio depoimento, no qual se delineia a passagem de um trabalho árduo e arriscado na mineração para uma dedicação integral à música, elemento que se tornaria não apenas meio de subsistência, mas também expressão identitária, cultural e afetiva.
Durante onze anos, Macedo atuou no subsolo das minas da região, exercendo atividades de elevado risco físico, em um contexto em que a mineração despontava como importante alternativa econômica local.
Essa etapa de sua vida foi abruptamente interrompida por um episódio traumático, consistente em um desabamento de grandes proporções ocorreu exatamente no local onde ele havia trabalhado instantes antes, produzindo forte impacto emocional e levando-o a abandonar imediatamente a atividade mineradora, consciente da fragilidade da vida diante daquele ambiente hostil.
Paralelamente ao trabalho na mina, Antônio Macedo já mantinha vínculo com a música, ainda que de forma amadora. Inspirado por sanfoneiros da região, desenvolveu suas habilidades de maneira autodidata, aprendendo a tocar “de ouvido”, sem qualquer formação técnica ou teórica formal.
Seu relato evidencia não apenas a espontaneidade desse aprendizado, mas também a forte tradição oral que caracteriza a música popular nordestina, na qual a escuta atenta e a prática constante substituem os métodos acadêmicos convencionais.
As primeiras apresentações ocorreram em contextos simples e rústicos, especialmente na zona rural, onde a inexistência de energia elétrica impunha condições precárias de iluminação e estrutura. A
s festas eram realizadas à luz de lampiões, sem palcos, com os músicos tocando diretamente sobre o chão de terra batida, muitas vezes envoltos pela poeira levantada pelos dançarinos, a ponto de ser necessário interromper as apresentações para que o ambiente se tornasse respirável. Nesse cenário, Macedo liderava o chamado “Trio da Alegria”, formado por sanfona, triângulo e zabumba, acumulando inicialmente também a função de cantor.
Com o passar do tempo, o reconhecimento do público e a crescente demanda por suas apresentações impulsionaram um processo gradual de profissionalização.
O trio inicial deu lugar a uma formação musical mais robusta, incorporando contrabaixo, bateria, dois cantores e equipamento de som próprio, o que possibilitou apresentações em palcos estruturados e a participação em eventos de maior visibilidade, inclusive como atração de abertura para artistas de renome.
A música consolidou-se, então, como sua principal e única fonte de renda, garantindo o sustento de sua família e assegurando-lhe prestígio social na comunidade.
Um dos aspectos mais simbólicos de sua trajetória é a longevidade de sua atuação, evidenciada pelo fato de ter tocado em eventos que atravessam gerações, como casamentos de mulheres para as quais, anos depois, também tocaria nas celebrações de suas filhas, demonstrando a permanência de sua presença na memória coletiva local.
A musicalidade de Antônio Macedo encontra raízes no ambiente familiar, uma vez que seu pai tocava fole de oito baixos, ainda que apenas como passatempo. Entre seus sete filhos, destaca-se Aluízio, conhecido como “Novo”, músico talentoso e multi-instrumentista, embora não tenha seguido a carreira profissional.
A expectativa de continuidade mais promissora, contudo, recai sobre o neto Yuri, descrito com orgulho como uma criança inteligente e dedicada, cuja iniciativa em aprender música supera as expectativas do avô, sinalizando a possível permanência desse legado artístico no âmbito familiar.
Além do percurso profissional, o documentário revela a visão de mundo de Antônio Macedo, marcada por gratidão, solidariedade e valorização das relações humanas. Ele se declara plenamente satisfeito com a vida que construiu por meio da música, ressaltando o prazer em seu trabalho e a vasta rede de amizades cultivadas ao longo dos anos.
Sua postura revela uma ética de cooperação, na qual o sucesso individual está intrinsecamente ligado ao bem-estar coletivo dos demais músicos, reconhecendo a importância da união e do apoio mútuo em um meio historicamente marcado por desafios e instabilidades.
A história de sua vida é enriquecida por episódios marcantes que ilustram as dificuldades e singularidades da atuação como músico popular no interior nordestino. Entre eles, destacam-se situações inusitadas, como o esquecimento da sanfona a caminho de uma apresentação, obrigando-o a retornar para buscá-la, ou a chegada a festas realizadas em locais de difícil acesso, feita a cavalo, com o instrumento transportado na garupa.
Episódios mais graves também são lembrandos, como a agressão ocorrida em julho de 2024, quando um objeto de ferro arremessado contra o palco atingiu sua sanfona durante uma apresentação pública, danificando o instrumento, mas evitando, por acaso, um ferimento físico mais sério. Somam-se a essas experiências o acidente na mina, que permanece como o marco decisivo de sua mudança de vida.
Desse modo, a trajetória de Antônio Macedo da Silva configura-se como um testemunho eloquente de resiliência, reinvenção e profunda conexão com a cultura musical nordestina.
Sua história transcende o relato individual e assume dimensão simbólica, revelando como a música pode funcionar como alternativa de sobrevivência, instrumento de envolvimento social e expressão de valores humanos fundamentais, como a solidariedade, a perseverança e a gratidão.

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