GUTEMBERG PEREIRA DE BRITO (1903–1998)
nasceu na Fazenda Ping’Água, no município de Acari, no Seridó potiguar, em 27 de setembro de 1903, inserido no seio de duas linhagens familiares de sólida projeção histórica e social na região.
Era filho de Napoleão Antão Pereira de Brito (1882–1950) e de Anunciada Cândida de Albuquerque (1884–1941). Pelo ramo paterno, era neto de José Sancho de Araújo (1858–1920) e de Maria Euzebia de Assumpção Brito (1864–1889); pelo ramo materno, descendia de Bernardino Pires de Albuquerque Galvão (1830–1901) e de Isabel Cândida da Conceição (1845–1925), vínculos que o conectavam a famílias tradicionalmente influentes no contexto econômico, político e cultural do Seridó.
Ele viveu e participou das atividades rurais auxiliando os pais na administração da propriedade familiar. Nesse ambiente, formou o caráter marcado pela convivência com o trabalho, pela proximidade com a vida seridoense e pelo senso de responsabilidade que mais tarde o acompanharia na vida pública.
Teve como irmãos Isaulina Bezerra de Brito, posteriormente Isaulina Bezerra Brito Cavalcante (1904–2010), Hortêncio Pereira de Brito (1905–1944), conhecido como Major Hortêncio, que construiu carreira de destaque como piloto da Força Aérea Brasileira e chegou a servir como piloto do então presidente da República, Getúlio Vargas, Osvaldo Pereira de Brito (1906–2007), Isaura Bezerra de Brito (n. 1907) e Napolião Antão Pereira de Matto (n. 1906).
Segundo o pesquisador e genealogista José Bezerra de Araújo, em 1930, Gutemberg transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde permaneceu até 1939. Nesse período, realizou o curso preparatório para farmácia e passou a atuar como técnico de enfermagem, experiência que lhe proporcionou formação prática e ampliou sua visão de mundo, antes de retornar definitivamente ao Rio Grande do Norte.
Sua vida afetiva foi marcada por um episódio singular, que se tornou parte da memória familiar e local. Conheceu América Pereira de Brito, também conhecida como Dona América Araújo (1914–1991), em um restaurante, ocasião em que, tomado por um impulso imediato, pediu-a em casamento no próprio primeiro encontro, sem jamais tê-la visto anteriormente.
Embora América estivesse então noiva de outro homem, o destino conduziu ambos ao matrimônio, celebrado em janeiro de 1939. América era sua prima, filha de Ricardo Pereira de Araújo e Maria Euzebia da Assunção, reforçando os laços familiares que caracterizavam as alianças matrimoniais entre famílias tradicionais da região.
Da união de Gutemberg e América nasceram os filhos Décio Pereira de Brito (1939–2024), Déa Pereira de Brito Galvão (n. 1943), Hortêncio Pereira de Brito Sobrinho e Dácio Pereira de Brito — também referido como Dárcio Pereira de Brito (1956–2017).
A trajetória pública de Gutemberg Pereira de Brito teve início em 1948, quando ingressou na vida política ao eleger-se vereador. Em 1951, tomou posse na Câmara Municipal, mas renunciou ao mandato.
Retornou à vereança nas eleições de 3 de outubro de 1954, quando conquistou novamente uma cadeira no Legislativo municipal. Sua atuação política foi marcada pela confiança que inspirava e pela capacidade de diálogo, atributos que o conduziram a funções de maior relevo.
Ao longo desse período, exerceu repetidas vezes a chefia do Executivo municipal de forma interina, em virtude das ausências dos prefeitos titulares, na primeira gestão Francisco Seráfico Dantas e na segunda Geraldo Galvão, recebendo a delegação para administrar o município em razão de sua experiência, credibilidade e relações de confiança.
Paralelamente, presidiu a Câmara de Vereadores o que cumulava com o exercício da função de vice prefeito em dois longos períodos, de 31 de março de 1958 a 30 de janeiro de 1963 e, em seguida, de 31 de janeiro de 1963 a 30 de janeiro de 1969, consolidando-se como figura central da política acariense.
No pleito municipal de 1968, lançou-se candidato a prefeito, contando com o apoio do então prefeito Geraldo Galvão e do grupo político Nóbrega e Dantas. Enfrentou como adversário seu primo Silvino Bezerra Filho, conhecido como Bigodão, que, amparado por um novo cenário político e por estratégias inovadoras, alcançou uma vitória considerada surpreendente e historicamente significativa.
Nesse contexto eleitoral, Gutemberg recebeu o apelido de “o Caximbão”, que passou a identificá-lo no imaginário político local. Comentários sobre possíveis influências externas naquele processo eleitoral circulam na memória oral, mas pertencem a um debate mais amplo e a uma análise contextual específica.
Após afastar-se da política, por volta de 1970, Gutemberg Pereira de Brito retornou à Fazenda Ping’Água. Nessa transição, cedeu a boa casa onde residia — localizada na esquina das ruas José Augusto e José Gonçalves — justamente ao seu adversário político. Na zona rural, dedicou-se à atividade agropecuária: cultivou algodão mocó, criou gado e comercializou leite em Acari.
Permaneceu imerso na vida do campo até meados de 1982, quando fixou residência definitiva na cidade, sem, contudo, romper os vínculos com a propriedade, a qual continuou a frequentar regularmente.
Não abria mão, todavia, de uma cartada de sueca ou pife-pafe com os parceiros inseparáveis desse antigo e requintado passatempo: Júlio Bezerra de Araújo (1904-1997) e João Bezerra Neto (1907-1993). Vale ressaltar que Júlio Bezerra é o genitor do reverenciado genealogista José Bezerra de Araújo que, tendo escutado inúmeras histórias desse trio de amigos, registrou algumas delas em seus livros.
Gutemberg Pereira de Brito faleceu em 19 de abril de 1998, no município de Acari, encerrando uma trajetória que conjugou tradição familiar, vida afetiva marcada por episódios singulares e uma atuação pública relevante, inscrita de forma duradoura na memória política e social de sua terra natal.
Sua figura permanece associada ao perfil de um homem profundamente integrado ao seu tempo, às dinâmicas do Seridó potiguar e à história de Acari.
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