IDAMECIR CORTEZ
É o retrato de uma personalidade singular na história social, esportiva e profissional de Currais Novos, cuja trajetória se constrói a partir de variadas experiências que articulam o futebol profissional, a mineração em contextos internacionais de alto risco, a política local e a comunicação radiofônica.
A pesquisa sobre ele revela um percurso marcado por conquistas, rupturas, episódios extremos de sobrevivência e um permanente compromisso com a cidade de origem, evidenciando uma visão crítica sobre as transformações do esporte e da sociedade ao longo das últimas décadas.
A carreira de Idamecir Cortez no futebol constitui um dos eixos centrais de sua história. Iniciado no Ajax, tradicional equipe de Currais Novos, destacou-se ainda jovem, o que o levou a Natal, onde participou de uma rigorosa seleção promovida pelo América Futebol Clube, reunindo quase mil atletas.
Apenas dois jogadores foram aprovados, entre eles Cortez, que passou a integrar o elenco do clube como centroavante, posição em que se notabilizou pela objetividade e pela vocação para o gol. Durante três anos no América, participou de um período particularmente vitorioso, conquistando o tricampeonato estadual nos anos de 1979, 1980 e 1981, consolidando seu nome no cenário esportivo potiguar.
O retorno a Currais Novos ocorreu por razões acadêmicas e profissionais, uma vez que precisava cumprir estágio obrigatório na Mina Brejuí para a conclusão do curso de Geologia, área profundamente vinculada à identidade econômica da cidade.
A liberação do América não foi imediata, dada a importância do atleta para o clube, mas, após negociações, Cortez passou a integrar o Potyguar de Currais Novos. Nesse contexto, sua atuação extrapolou as quatro linhas do campo, pois, diante da saída do então presidente do clube e do risco iminente de abandono da competição, assumiu simultaneamente as funções de jogador e presidente, garantindo a continuidade da equipe no campeonato.
Ao recordar esse período, menciona companheiros que marcaram época, como Índio, Joelma Félix, Miltinho, Ivo, Escobar e Joãozinho, compondo um elenco que permanece vivo na memória esportiva local.
As rivalidades regionais ocupam lugar de destaque em seu relato, sobretudo os confrontos com equipes de Caicó, que, segundo ele, representavam a disputa mais acirrada, superando inclusive a tradicional rivalidade com o Centenário de Parelhas.
Os jogos contra o Corinthians de Caicó eram decisivos e carregados de tensão, como exemplifica a vitória por dois a um em Caicó, na qual marcou o gol decisivo, episódio seguido por reação violenta da torcida adversária.
Já a rivalidade com Parelhas é descrita como intensa, porém saudável, restrita ao campo de jogo, marcada pelo respeito à qualidade técnica dos adversários, como o jogador Vando, a quem se refere com admiração.
Mesmo após o encerramento de sua atuação mais intensa no futebol potiguar, Cortez manteve vínculo com o esporte. Jogou na Bahia, foi convocado para a seleção baiana em uma partida festiva contra o Flamengo, no jogo de despedida do lateral Júnior, e continuou praticando futebol durante seu longo período de trabalho no exterior, demonstrando que a relação com o esporte permaneceu como elemento estruturante de sua identidade.
Paralelamente à carreira esportiva, Idamecir Cortez construiu uma trajetória sólida como geólogo, fortemente influenciada pela tradição mineradora de Currais Novos e pela atuação de seu pai na Mina Brejuí.
Essa formação o levou a atuar no exterior por quase duas décadas, sobretudo na África, em projetos de reconstrução de países assolados por guerras civis. Selecionado em um processo altamente competitivo, que reuniu mais de seiscentos candidatos, vivenciou uma das experiências mais dramáticas de sua vida ao sobreviver a um ataque de grandes proporções contra o empreendimento em que trabalhava, que empregava cerca de 1.800 pessoas de diversas nacionalidades.
O ataque resultou na morte de aproximadamente 1.500 trabalhadores, restando apenas algumas centenas de sobreviventes. Em meio a bombardeios e confrontos armados, Cortez fugiu, escondeu-se na mata e, sem condições de subsistência, rendeu-se aos guerrilheiros, permanecendo como refém por uma semana, sobrevivendo em condições extremas, alimentando-se de grama diante da ausência de água e comida.
Sua libertação ocorreu após complexas negociações diplomáticas, envolvendo o governo brasileiro e o pagamento de vultosas indenizações, uma vez que havia cidadãos de diferentes nacionalidades entre os sequestrados. Apesar do trauma, e mesmo após enfrentar diversas evacuações violentas ao longo de sua permanência na região, retornou ao país africano para continuar seu trabalho, motivado pela paixão pela geologia e pelo compromisso profissional.
No âmbito político, sua projeção como atleta e o legado familiar facilitaram sua inserção na vida pública local. Eleito vereador em 1982 como o quarto mais votado de Currais Novos, exerceu mandato de quatro anos na Câmara Municipal, atribuindo sua vitória à combinação entre popularidade esportiva, tradição familiar e à influência de seu pai, conhecido como Amorim, que também exerceu dois mandatos como vereador.
Complementarmente, sua atuação na comunicação, especialmente no rádio, reforçou sua presença pública. Trabalhou como apresentador, locutor e comentarista nas rádios Brejuí e Currais Novos, mantendo vínculo direto com a população, inclusive ao lado do pai, fundador da Rádio Brejuí.
Ao refletir sobre o esporte e a sociedade, Idamecir Cortez estabelece um contraste entre o futebol de sua geração e o cenário contemporâneo. Para ele, no passado, o amor à camisa e o compromisso com a cidade e com o público ocupavam lugar central, ainda que o aspecto financeiro fosse relevante.
Na atualidade, avalia que o futebol brasileiro se orienta prioritariamente por interesses econômicos, tornando o vínculo afetivo secundário diante da necessidade de garantir estabilidade financeira.
Recorda, ainda, um tempo em que o esporte amador mobilizava famílias inteiras, levando pais e filhos aos estádios, realidade que, segundo ele, foi gradualmente substituída por novas formas de entretenimento, especialmente a televisão e os dispositivos móveis, responsáveis pelo afastamento do público jovem.
Por fim, a conversa revela um forte compromisso de Cortez com a revitalização do esporte em Currais Novos. Ele manifesta entusiasmo diante das iniciativas de retomada do Potyguar no cenário estadual e se coloca à disposição para colaborar com sua experiência.
Ressalta, ainda, que o município sempre se destacou não apenas no futebol, mas também no atletismo, formando atletas de nível olímpico que projetaram o nome da cidade nacional e internacionalmente.
Sua mensagem final constitui um apelo direto às lideranças políticas para que invistam de forma consistente no esporte como instrumento de inclusão social, formação cidadã e afirmação da identidade local.

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