AGOSTINHO FELICIANO DANTAS

 


A trajetória do padrasto de Wellignton Medeiros, amplamente conhecido como Agostinho da Telern, configura-se como um exemplo expressivo de mobilidade social, dedicação profissional e compromisso comunitário no contexto histórico de Currais Novos. 

Sua história de vida, conforme revelada em entrevista, inicia-se em um ambiente de extrema simplicidade material, marcado pelo trabalho precoce e pelo forte senso de responsabilidade familiar, e evolui para uma carreira dinâmica, pautada pela competência técnica, pela capacidade de adaptação às transformações tecnológicas e por valores humanos que lhe asseguraram amplo reconhecimento social.

Nascido no bairro Paizinho Maria, Agostinho cresceu em uma família de poucos recursos, na qual o pai exercia o ofício de tropeiro e a mãe trabalhava como lavadeira de roupas. Desde a infância, foi compelido a contribuir para o sustento doméstico, ajudando o pai na distribuição de água pelas residências e auxiliando a mãe no transporte de água para a lavagem de roupas. 

Ainda muito jovem, passou a realizar pequenos serviços, como engraxate e vendedor ambulante, transportando mercadorias em carroça, atividades que desempenhava não apenas para atender às próprias necessidades, mas também para apoiar os irmãos Feliciano e Fátima. 

Nesse contexto de privações, consolidou-se um sonho que o acompanharia por muitos anos que era tornar-se motorista de caminhão, profissão que ele via como símbolo de autonomia, responsabilidade e dignidade.

Antes de ingressar no setor de telecomunicações, Agostinho acumulou experiências profissionais diversificadas, que contribuíram significativamente para a formação de seu caráter e para o desenvolvimento de habilidades práticas. Seu primeiro emprego formal ocorreu no estabelecimento conhecido como Bastião das Bicicletas, onde atuou no aluguel de bicicletas e na entrega de água. 

Posteriormente, foi introduzido ao universo da fotografia ao trabalhar com Targino, experiência mediada por seu irmão Feliciano, que ampliou seu repertório técnico e despertou novas aptidões. 

Passou ainda pela Prefeitura de Currais Novos, em uma fase de transição profissional, até alcançar a realização de seu sonho de infância ao atuar como motorista de caminhão e ônibus na empresa de transportes de Targino, função que lhe proporcionou vivência em longas viagens e consolidou sua confiança profissional. 

Trabalhou também por quase dois anos na concessionária Chevrolet, experiência encerrada quando surgiu a oportunidade decisiva de ingressar na Telern.

O ano de 1982 marca o início da fase mais significativa de sua carreira, com sua aprovação em primeiro lugar no concurso público da Telern para o cargo de motorista. Esse ingresso representou não apenas estabilidade profissional, mas também a abertura de um percurso ascendente dentro da empresa, no qual Agostinho demonstrou versatilidade e capacidade de adaptação. 

Após cerca de um ano, seu talento para a fotografia foi reconhecido, levando-o a assumir a função de fotógrafo da diretoria da Telern, em Natal. Nessa etapa, passou a registrar, por meio de equipamentos fotográficos, as leituras dos sistemas telefônicos das centrais, que posteriormente seriam processadas para fins administrativos. 

Essa atividade o colocou em contato direto com um momento de transição tecnológica, no qual sistemas analógicos começavam a ceder espaço a processos progressivamente informatizados. Uma anedota recorrente em seu relato refere-se à previsão de um engenheiro de que aquele método se tornaria obsoleto em dez anos, quando, na prática, em apenas cinco anos já havia sido completamente superado por novas tecnologias.

Após esse período em Natal, Agostinho conseguiu transferência para Currais Novos, onde passou a atuar diretamente na área técnica, inicialmente auxiliando o instalador Henrique. Com o crescimento da demanda e a expansão da rede telefônica, foram formadas duas equipes técnicas, cabendo a Agostinho a liderança de uma delas. 

Sob sua coordenação, a equipe tornou-se responsável pela instalação e manutenção de linhas telefônicas em uma ampla região, abrangendo Currais Novos, Parelhas, Jardim do Seridó e Florânia, além de atender demandas específicas em áreas estratégicas, como a Mineração Tomaz Salustino, em Acauã. 

Ele destaca com orgulho a eficiência do grupo, que, mesmo reduzido em número, mantinha o sistema em pleno funcionamento, a ponto de receber elogios da presidência da empresa, interpretados como reconhecimento pela ausência de falhas e interrupções no serviço.

Com a transformação da Telern em Telemar e o encerramento de seu vínculo formal, Agostinho não se afastou da área de telecomunicações. Atuou por dois anos na implantação da TV a cabo em Currais Novos, sendo um dos pioneiros na instalação da rede, iniciada pelo bairro Inocoop. 

Posteriormente, já aposentado, fundou sua própria empresa de prestação de serviços técnicos especializados, atendendo prefeituras, câmaras municipais e estabelecimentos comerciais. 

Ele ressalta sua especialização em procedimentos técnicos complexos, atualmente dominados por poucos profissionais, o que lhe confere relevância contínua no setor. Paralelamente, dedica-se de forma voluntária à função de Coordenador-Geral dos Agentes de Proteção à Criança e ao Adolescente, atividade que revela seu compromisso social e sua preocupação com o bem-estar coletivo.

A entrevista evidencia que o êxito profissional de Agostinho está profundamente associado a seus valores pessoais. Ele se define como alguém de coração aberto, humilde e carismático, que procura tratar todos com respeito e solidariedade, atributos que, segundo ele, explicam a vasta rede de amizades construída ao longo da vida. 

Para ele a família ocupa lugar central e expressa gratidão aos pais e irmãos, no reconhecimento do apoio constante de Feliciano e Fatinha, no apreço pela esposa Vitória, a quem descreve como uma verdadeira guerreira, e no orgulho dedicado aos filhos e enteados, criados com o mesmo zelo e afeto. 

Destaca, ainda, a importância de figuras como Targino, a quem atribui não bens materiais, mas confiança e incentivo moral, fundamentais para assumir grandes responsabilidades profissionais.

Ao longo de seu depoimento, Agostinho também oferece observações relevantes sobre as transformações do setor de telecomunicações. Lembra bem as dificuldades enfrentadas na instalação de linhas telefônicas provisórias para transmissões radiofônicas em eventos de grande porte, como vaquejadas e a Festa de Sant’Ana, que exigiam plantões contínuos da equipe técnica. 

Comenta, ainda, o declínio dos telefones públicos, os chamados “orelhões”, cuja retirada passou a ser solicitada pelos próprios moradores, em razão de questões de segurança, refletindo mudanças sociais e tecnológicas. Por fim, observa que, apesar da modernização dos sistemas, a manutenção das redes antigas continua a apresentar desafios significativos, especialmente em períodos chuvosos.

A trajetória de Agostinho Feliciano Dantas, portanto, ultrapassa o relato individual e assume caráter representativo de uma geração que construiu sua história por meio do trabalho árduo, da adaptação às mudanças tecnológicas e da valorização das relações humanas. 

Sua vida profissional e pessoal revela como a competência técnica, aliada à humildade e ao compromisso social, pode gerar um legado duradouro de respeito, reconhecimento e serviço à comunidade.

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