FERNANDO ANTÔNIO BEZERRA GALVÃO
guarda na memória um vasto e minucioso repertório de informações genealógicas que ultrapassa, em muito, os ramos das famílias Dantas, Medeiros, Pires, Galvão, Lopes e tantas outras que estruturam a formação histórica do Seridó. Entre todos esses troncos, dedica especial atenção à linhagem dos Bezerra do Seridó, cuja consolidação regional remonta ao casamento, celebrado em 1794, entre Cipriano Lopes Galvão Júnior e Teresa Maria José, filha de José Bezerra de Menezes, homem oriundo do Riacho do Sangue, no Ceará, que se estabeleceu em Santa Cruz, na Fazenda Jacaracica.
Teresa Maria José foi a primeira representante desse ramo dos Bezerra nascida em solo potiguar, e desse casal descende Fernando, assim como a quase totalidade da família Bezerra que se espalhou pelo Seridó ao longo dos séculos. Cipriano e Teresa figuram, ainda, como avós de personagens marcantes da história regional, entre eles o coronel Silvino Bezerra, José Bezerra da Aba da Serra, Cipriano Bezerra Galvão Santa Rosa e Manoel, conhecido como “Coquinho”, nomes que atravessam a memória política, social e econômica da região.
A residência de Fernando Galvão tornou-se, com o tempo, um ponto de peregrinação para descendentes de seus ancestrais e para interessados na história familiar do Seridó. São visitas frequentes, carregadas de relatos, lembranças e, não raro, de fotografias antigas, documentos e apontamentos que ampliam ainda mais o já impressionante acervo mental e material que ele reúne.
Esse constante intercâmbio alimenta uma memória prodigiosa, onde nomes, datas, enlaces matrimoniais e deslocamentos territoriais se organizam com rara clareza. Paralelamente, Fernando dedica-se à investigação da árvore genealógica de Tomás de Araújo Pereira, português oriundo do Minho que chegou ao Brasil por volta da década de 1730, tronco do qual derivam milhares de descendentes cuidadosamente identificados ao longo de décadas de pesquisa.
Segundo o genealogista Luiz Mariz, os encontros com Fernando Galvão são sempre prazerosos e fecundos, verdadeiros mergulhos em um oceano de informações preciosíssimas, onde a história do Seridó e de suas raízes é revivida com vigor e precisão.
Para ele, Fernando é um historiador, memorialista e genealogista dos mais notáveis, possuidor de um conhecimento inesgotável sobre a origem das famílias seridoenses, além de ser reconhecido como sinônimo de generosidade, simplicidade, conversa afável e amizade duradoura. Sua figura encarna, assim, não apenas o saber histórico, mas também a dimensão humana que sustenta a transmissão da memória coletiva.
Reconhecido por muitos como uma verdadeira “enciclopédia viva da genealogia do Seridó”, Fernando Galvão construiu seu saber ao longo de décadas por meio de uma metodologia que alia pesquisa sistemática em arquivos paroquiais e cartoriais à coleta rigorosa da história oral junto aos anciãos da região.
Sua atuação o transformou em fonte primária para inúmeros pesquisadores e autores, que recorrem a seu vasto acervo documental e fotográfico como base segura para novos estudos e publicações. Embora relute em publicar obra própria, seu trabalho sustenta silenciosamente boa parte da produção genealógica e histórica contemporânea sobre o Seridó, constituindo um legado fundamental para a preservação da memória regional.
Filho de Quintino Galvão, que assumiu a prefeitura de Currais Novos ainda aos vinte e quatro anos, em 1922, além de ter sido comerciante de algodão e proprietário rural, Fernando teve pouco convívio com o pai, falecido quando ele contava apenas quatro anos de idade. Sua mãe, prima em segundo grau de Quintino, insere-se em um contexto de forte consanguinidade familiar, característica recorrente na formação social do Seridó.
Pelos avós paternos, liga-se a Lá de Paminondas, nome que mais tarde deixou de ser usado, e a Francisca Xavier de Araújo, filha do coronel José Bezerra, figura de destaque em Currais Novos. O avô paterno, por sua vez, era filho do tenente-coronel Cipriano Lopes de Vasconcelos Galvão, proprietário da Fazenda Recreio, em Carnaúba.
A avó materna era irmã da avó paterna, reforçando os laços de parentesco cruzado que tanto despertariam, mais tarde, o interesse investigativo de Fernando. Teve ainda um irmão, Fred Galvão, advogado, fruto do primeiro casamento de seu pai com Rita Pinheiro, falecido prematuramente aos quarenta e quatro anos.
De temperamento modesto, Fernando costuma minimizar o alcance de seu conhecimento, afirmando dominar “mais ou menos” quarenta por cento das famílias seridoenses, ao mesmo tempo em que reconhece lacunas em relação a determinados troncos, como os Lucena, Queirós e Dias.
Desde a infância demonstrou grande apreço pela vida na zona rural, embora nunca se considerasse um estudante aplicado nos moldes tradicionais. Tentou, por breve período, lecionar História no ginásio Jesus Menino, experiência abandonada após quinze dias, quando concluiu não possuir vocação para o magistério formal.
O interesse pela genealogia surgiu ainda na infância, de maneira quase fortuita, quando sua mãe, atendendo a uma exigência escolar, elaborou um caderno com os nomes e datas de pais e avós. Fernando guardou esse registro e passou a se perguntar quem era parente de quem, iniciando um processo de curiosidade contínua.
Em 1970, a leitura da obra Com “R” no de Vila a Cidade, de autoria do doutor Antônio Othon Filho, intensificou esse interesse, ao apresentar uma narrativa povoada de nomes e personagens da região. Apesar da resistência materna, que via na genealogia um desvio dos estudos formais, Fernando aprofundou suas investigações, sobretudo ao perceber, em conversas com a avó e outros parentes, que praticamente todos na cidade mantinham algum grau de parentesco entre si.
Ao longo dos anos, Fernando desenvolveu uma prática de pesquisa baseada na escuta atenta da memória oral, dialogando com pessoas idosas que hoje já não vivem, como o tio-avô Antônio Cândido, Elias Fernandes, Dona Marinha — nascida em 1882 e considerada a pessoa mais velha com quem conversou — e seu antigo professor, Antônio Quintino.
Complementarmente, teve acesso aos arquivos paroquiais de Currais Novos, com a permissão do padre Aladim, e aos de Acari, com o auxílio da irmã Nísia, além de examinar inventários e registros civis em cartórios, beneficiado pela colaboração de tabeliães como Mariano Guimarães, Madeirinha, Jango e Patrício Torres. Seu acervo fotográfico, formado por imagens doadas por conhecedores de seu trabalho ou resgatadas do abandono, constitui um patrimônio visual de valor inestimável.
O alcance de seu catálogo impressiona: apenas dos descendentes de Tomás de Araújo Pereira, que teve somente duas filhas, Fernando reuniu registros de mais de vinte e cinco mil pessoas. Soma-se a isso a documentação de famílias como os Garcia, os Pereira Monteiro e inúmeros outros troncos que estruturam a genealogia regional. Não por acaso, pesquisadores e escritores reconhecem que bebem diretamente de sua fonte, recorrendo a ele em busca de orientação segura e dados confiáveis.
Entre os temas debatidos em suas pesquisas e conversas, figuram questões complexas e, por vezes, controversas, como a origem de Dona Adriana, esposa de Cipriano Lopes Galvão, situada pela Nobiliarquia Pernambucana em Igarassu, mas cuja suposta ascendência holandesa foi investigada sem êxito por pesquisadores contemporâneos.
Também se destaca a figura de Alexandre Rodrigues da Cruz, português e sargento de milícias, casado com Vicência Lins de Vasconcelos, detentor de datas de terras na Serra da Dorna e na Cauã Velha, bem como a curiosidade de que o sobrenome Lins de Vasconcelos aparece majoritariamente entre mulheres na genealogia local.
A consanguinidade, recorrente na história do Seridó, surge como tema constante, ilustrada por enlaces familiares complexos que reforçam a percepção de uma sociedade profundamente entrelaçada por laços de sangue. Fernando Galvão demonstra, ainda, amplo domínio da formação administrativa e eclesiástica do Seridó, lembrando que a região pertenceu inicialmente à Freguesia de Nossa Senhora do Bom Sucesso, em Pombal, na Paraíba, sendo posteriormente desmembrada com a criação da capela de Sant’Ana, em Caicó, da qual se originaram Acari e, mais tarde, Currais Novos, em 1835, fato que explica a presença de registros antigos desta última nos arquivos caicoenses.
Apesar de tamanha erudição, Fernando nunca demonstrou interesse em consolidar seu trabalho em livro, afirmando jamais ter pensado nisso. Ainda assim, sua contribuição é reconhecida por aqueles que, como Manoel Neto, trabalham na organização de obras genealógicas, a exemplo do livro sobre Antônio Pires e Guilhermina, cujos quase dez mil descendentes já foram catalogados, e no qual o nome de Fernando figurará como reconhecimento de sua colaboração essencial.
Portanto, sua trajetória reafirma a genealogia como exercício de resgate, uma forma de conhecer o passado para compreender o presente, preservando nomes, histórias e vínculos que, sem esse esforço silencioso e persistente, estariam condenados ao esquecimento.

Conheci Fernando Galvão por intermédio de Wallace Pereira em Cerro Corá. Faz excelente trabalho de resgate histórico das famílias seridoenses, permitiu-me ter acesso a uma informação importante a respeito de Gracindo Deitado de Brito, tido como primeiro morador a exigir casa nessa cidade, embora possa ter controvérsias.
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