VIVÊNCIA RURAL E A TRANSIÇÃO DE GERAÇÕES

 


    Das narrativas de Edmilson Batista de Araújo, um sertanejo potiguar de 72 anos, e sua filha, a professora Sulamita, observamos um momento crucial de transição cultural no nosso sertão.

    A análise de seus depoimentos revela um profundo contraste entre o paradigma de vida definido pelo trabalho braçal, que moldou as gerações passadas, e a ascensão da educação como o caminho irrevogável para o futuro.

    Figura central do relato, Edmilson Batista emerge como um bom observador da tradição rural, cuja trajetória é um testemunho de resiliência, trabalho árduo e valores morais sólidos. 

    Com 72 anos, ele se define por suas atividades tradicionais, "roceiro", "vaqueiro" e "criador" e, pelas práticas ancestrais, como a festa da moagem e a produção de rapadura e farinha. 

    Ao descrever a evolução da farinhada, contrastando o método antigo, que dependia da força humana ("dois homens que puxavam uma roda"), com as técnicas atuais, ele demonstra uma profunda consciência histórica. No entanto, é no legado familiar que seu orgulho se manifesta de forma mais intensa. 

    Edmilson enfatiza ter criado seus filhos, incluindo uma filha mencionada com carinho como "Fatinha", "de barriga cheia sem roubar nada de ninguém", destacando que eles não se envolveram com "coisa safada". 

       Igualmente importante é sua herança ancestral na região de Lagoa do Mato, da qual fala com honra. Apesar dessa firmeza moral, a narrativa de Edmilson é permeada por um lamento constante. "Minha história foi sofrida", admite ele, "coisa que eu tenho vontade era de estudar, na minha época não teve chance". 

    Essa falta de oportunidade o condenou a uma "vida dura, essa vida difícil de trabalhar em roça". É justamente essa vida que ele agora vê desaparecer com uma clareza resignada. 

    Observa ainda o abandono das lavouras, notando que "o pessoal que trabalhava braçal, esse povo não querem mais essa vida". As terras da região, incluindo seu próprio "pedacinho de terra", estão "virando mato" por falta de mão de obra.

    Essa constatação o levou a uma profunda reavaliação de seus próprios valores. Se antes acreditava que o mérito estava na produtividade física – "pensei que quem era bom era quem saía na frente, quem apanhava mais de algodão" –, hoje ele reconhece seu equívoco: "estava totalmente errado e não tem mais como consertar". Sua conclusão é categórica e representa a mudança de um paradigma: "Hoje o caminho é esse: é estudar". 

    Ele vê nos educadores, como sua filha, a verdadeira vocação que o "orgulha muito". Essa valorização da educação contrasta com seu sentimento de desamparo político, criticando a falta de "nenhuma solução aqui para o Nordeste", como se a região estivesse "trancada e vai continuar".

    Sulamita, sua filha, personifica a transição que seu pai descreve. Vinda de uma "infância bem humilde", mas num "tempo mais moderno", ela trilhou o caminho que Edmilson não pôde. Inspirada pela irmã mais velha, que estudou com grande sacrifício familiar, Sulamita formou-se e foi aprovada em concurso público no município de Luís Gomes. 

    Sua trajetória, entretanto, não representa uma ruptura com as raízes, mas sim uma continuação delas por outros meios. Ela expressa imenso orgulho por ter lecionado em uma escola que leva o nome de seu bisavô, construída em terreno doado por seu avô, e reafirma o compromisso familiar de "contribuir para a educação na comunidade".

    Consciente de seu papel como ponte entre gerações, Sulamita se dedica a preservar a memória, levando crianças das escolas para conhecerem o trabalho no "engenho", na "moagem" e na "farinhada". 

    Ela reconhece a dificuldade dessa preservação, admitindo que "está ficando complicado manter a tradição porque é um trabalho duro... a mão de obra fica complicada", mas insiste na importância de mostrar esse legado. 

    Assim, observamos a complexidade de um sertão que valoriza seu legado, critica o abandono político e celebra, inequivocamente, a educação como a principal e mais potente ferramenta de transformação social.

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