A CARREIRA E A INFLUÊNCIA DE ELIEL BEZERRA



    A trajetória de Elieu Bezerra da Câmara ergue-se como uma vereda antiga riscada no chão quente do Seridó, dessas que o vento não apaga e a memória insiste em guardar. 

    Comunicador, político, articulador nato e, acima de tudo, filho adotivo do afeto de Currais Novos, sua história é um feixe de caminhos onde a palavra, o gesto e a habilidade de bem conviver semearam colheitas duradouras. 

    Da lama histórica do Beco natalense às pedras luminosas da mineração seridoense, sua vida se fez ponte, aliança e gesto ofertado. 

    Entre seus feitos, desponta como marco a Missa do Agricultor, cerimônia tecida com fé e raiz ao lado de Dona Tetê Salustiano, um rito que, como semente bendita, germinou e se tornou tradição regional. Elieu definiu seu êxito como fruto de um “tripé” firme: a ação social, a política e a mineração. 

    Sobre esses pilares ergueu a própria identidade pública, tornando-se vereador, jornalista e, segundo gosta de dizer, “amigo do povo de Currais Novos”.

    O primeiro sopro de sua vida jornalística nasceu em Natal, na Rádio Nordeste, encravada no lendário Beco da Lama, um corredor de boemia e poesia onde muitos destinos encontraram o seu ponto de partida. Ali, Elieu deu seus primeiros passos ao lado do cronista social Paulo Macedo, figura de brilho próprio na vida cultural potiguar.

    Foi Macedo quem o ensinou a escutar a cidade, a decifrar seus gestos, a narrar as nuances da vida social. Era ele quem o lançava aos salões, às festas, às reportagens: “Ele me dava muitos afazeres… e eu saía com Paulo Macedo fazendo a reportagem.”

    Por meio dessa parceria, Elieu aprendeu a arte maior do jornalismo: aproximar-se. Frequentou ambientes onde antes não pisara, fez da convivência um instrumento de trabalho e encontrou, nas amizades de Macedo, as portas que mais tarde abriria por conta própria. Assim sendo estruturou a rede que, anos depois, sustentaria seus maiores voos.

    O vento da política começou a soprar quando sua amizade com Dinarte Mariz, considerado grande líder do Rio Grande do Norte transformou-se em ponte para um novo destino. Essa aproximação, também intermediada por Paulo Macedo, não foi apenas casual, foi convite, empurrão e promessa de futuro.

    Com Dinarte, Elieu aprendeu outras formas de lidar com a palavra e com o povo. Incentivado pelo político, lançou-se candidato e foi eleito vereador em Currais Novos, terra onde mais tarde se tornaria candidato a deputado. Era como se o Seridó, com sua força telúrica, o chamasse a fincar raízes.

    Sua habilidade de relacionar-se, ele próprio confessa, sempre foi natural, uma espécie de dom de beira de estrada que lhe permitia conversar com todos, dos caciques políticos aos trabalhadores mais simples: “Eu tinha muita facilidade com a política… e com as pessoas que vivem do relacionamento.”

    Conquistou respeito, aliados e amizades que atravessaram décadas. Entre todas as sementes lançadas por Elieu, a Missa do Agricultor é aquela que mais fundo enraizou-se na terra seridoense. A ideia brotou do coração generoso de Dona Tetê Salustiano, que sonhava com um rito dedicado aos homens e mulheres da enxada. Coube a Elieu transformar o sonho em realidade.

    Foi ele quem procurou o Padre Cortez e, com palavras firmes como chão de inverno, convenceu-o da grandeza da iniciativa. A boa índole e o prestígio de Dona Tetê serviram-lhe de argumento; sua capacidade de articulação, de alicerce.

    A missa cresceu, espalhou-se como promessa atendida. E aos 32 anos de existência, ecoava todas as segundas-feiras pelas ondas da rádio de Currais Novos, alcançando o Seridó, o Trairi, o Potengi, a região Central do RN e até o Curimataú paraibano. Era celebração, era encontro, era memória coletiva.

    Ao fortalecer essa tradição, Elieu estreitou ainda mais seus laços com a família Salustiano. Daí surgiram convites afetuosos, como o habitual café da manhã ofertado por Dona Tetê, gesto que, no sertão, vale tanto quanto uma bênção.

    Elieu gosta de resumir sua trajetória a um “tripé”: três pernas firmes sustentando a casa de sua vida pública. Cada uma delas, à sua maneira, funcionou como pilar essencial Sua presença constante nos ambientes sociais da cidade garantiu-lhe visibilidade, confiança e prestígio. 

    As alianças com grandes figuras, especialmente Dinarte Mariz, abriram-lhe caminhos e definiram sua atuação pública. Os vínculos com a família Salustiano forneceram-lhe apoio e inserção no setor econômico mais influente da região.

    Ele próprio se define como resultado da “inteligência” e do “bom relacionamento”, atributos que, somados, lhe deram a capacidade de transitar por todas as esferas, da política às casas simples, dos estúdios às celebrações religiosas.

    Aos 80 anos, vivendo agora em Jardim do Seridó, Elieu olha para trás como quem contempla uma estrada longa onde cada pedra tem um nome e cada sombra guarda uma história. Fala com gratidão, serenidade e aquele orgulho brando de quem plantou mais do que colheu.

    Relembra com ternura o tempo em que foi vereador, jornalista e amigo do povo de Currais Novos, papéis que assume com simplicidade: “Eu fui vereador lá… eu fui jornalista em Currais Novos… eu fui amigo do povo de Currais Novos.”

    Sente que deixou uma “fama de bom”, e que as amizades construídas ao longo de toda a vida permanecem como raízes que o Seridó não solta. Currais Novos, diz ele, é cidade que o “quer bem”, e esse afeto, ele garante, é recíproco.

Citações Memoráveis de Elieu Bezerra

  • Sobre os começos:
    “Olha, eu comecei minha vida no Beco da Lama… não se admirem dessa minha sinceridade.”

  • Sobre seu método de sucesso:
    “Minha vida lá foi feita desse tripé: ação social, políticos e mineração.”

  • Sobre sua habilidade de networking:
    “Aproveitei muito as oportunidades que me foram dadas pelos políticos… sempre procurei me situar bem.”

  • Sobre a Missa do Agricultor:
    “Quem sugeriu ao Padre Cortez celebrar a missa do agricultor foi exatamente Dona Tetê.”

  • Sobre seu legado:
    “Eu fui vereador, fui jornalista… fui amigo do povo de Currais Novos… consegui me situar bem entre os setores.”


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