ADALICE DANTAS, A GUERREIRA DA AGULHA
A narrativa de vida de Adalice Dantas, octogenária natural de Picuí, na Paraíba, e radicada há décadas em Currais Novos, Rio Grande do Norte, constitui um valioso registro da história social e do ofício da costura na região do Seridó. Ao estabelecer-se em Currais Novos, Adalice Dantas consolidou-se como uma profissional de referência, atendendo a uma clientela distinta que abrangia não apenas a cidade, mas também municípios vizinhos como Acari e Carnaúba dos Dantas.
O seu labor era executado em condições que hoje remetem a um passado de sacrifício e resiliência: sob a penumbra de lamparinas e candeeiros, ela operava máquinas de costura rudimentares, movidas pela força motriz dos pés.
A despeito dessas limitações, sua versatilidade era notável, abrangendo desde a complexa alfaiataria masculina até a delicadeza dos vestidos de noiva, cujos detalhes, como flores de tecido, eram meticulosamente confeccionados à mão.
Tal esmero fez com que sua presença fosse requisitada até mesmo durante os períodos de veraneio de famílias abastadas, que a levavam ao litoral para garantir a confecção de suas indumentárias.
Mais do que a excelência técnica, o legado de Adalice reside na perpetuação de seu saber. A transmissão do ofício à sua única filha, Maria Olindina, representa o ponto culminante de sua carreira.
Seguindo os passos maternos, Maria iniciou-se na costura também aos doze anos, aprimorando sua técnica de forma autônoma e, posteriormente, refinando o acabamento sob a tutela de mestras locais.
Hoje, com ateliê próprio na residência da mãe, Maria simboliza a continuidade viva de uma tradição familiar, motivo de profundo orgulho para a matriarca.
No âmbito pessoal, a história de Adalice é marcada pela força de caráter e pela simplicidade sábia.
Sua união de quinze anos com Antônio, embora não formalizada civilmente, é rememorada como um período de felicidade e parceria, pautada pelo afeto mútuo.
Fisicamente robusta, Adalice orgulha-se de ter preservado a saúde da coluna apesar de décadas de trabalho extenuante, tendo sido afastada das máquinas apenas por uma fratura na perna que lhe impôs a aposentadoria.
Atualmente, Adalice observa com olhar crítico e nostálgico o cenário de sua profissão.
Ela lamenta o declínio do interesse das novas gerações pelo aprendizado da costura, contrastando a apatia contemporânea com o vigor e a abundância de artífices de sua época, quando a região contava com um ecossistema vibrante de costureiras de alto nível.
Para Adalice Dantas, que se autodefine como uma "guerreira de sua arte", a costura permanece não apenas como uma ocupação economicamente vantajosa, mas como uma expressão de identidade e dignidade que merece ser preservada contra o esquecimento do tempo.
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