MANOEL PEREIRA DA SILVA (1931/2017)

 

 


Sob o céu impávido que testemunhou a saga de seus antepassados, Manoel Pereira da Silva (1931–2017) cumpriu seu destino como um monumento vivo da resistência sertaneja. 

Manoel Vermelho, nasceu e despediu-se do mundo no mesmo solo sagrado: a Fazenda Saco dos Pereira, encravada no município de Acari, Rio Grande do Norte. Filho de Agostinho Cassiano Pereira e Ana Santana Pereira, Manoel era a própria encarnação da terra que cultivava, um homem de raízes profundas, cuja vida se desenrolou na imutável paisagem da caatinga.

Figura imponente, Manoel Vermelho ostentava uma compleição corpulenta e alta. Seus olhos azuis, janelas de uma alma serena, contrastavam com a tez que, castigada pelo sol inclemente do sertão, adquiria uma tonalidade avermelhada, o "encarnado" que lhe valeu o apelido e que ele carregava com a dignidade de um título nobiliárquico, embora demonstrasse certa relutância em revelar suas origens ancestrais.

Ao lado de sua esposa, Josefa, também natural do Saco dos Pereira, construiu uma linhagem de sertanejos: José, Pedro, Francisco, João e Selma, a única filha, que permaneceu ao seu lado até o suspiro derradeiro em setembro de 2017.

Manoel não foi apenas um criador e vaqueiro; foi um exímio guardião da tradição oral. Seu sítio, divisa de porteira com a histórica Fazenda Pinturas, lar do renomado escritor Paulo Balá, tornou-se um manancial de narrativas. 

Diz-se, com justiça, que aquilo que Paulo Balá eternizou em seus livros, Manoel Vermelho viveu e narrou ao vento. Nesse norte, muitas de suas crônicas orais, ricas em detalhes e vivacidade, dissiparam-se na poeira do tempo, restando apenas na memória daqueles que tiveram o privilégio de ouvi-lo.

O alpendre de sua casa era seu palco e seu templo. Ali, as conversas fluíam, invariavelmente regadas a partidas de sueca. O jogo, herança lusa, era disputado com fervor com quatro pessoas, 120 pontos em jogo. A vitória exigia mais de 60 pontos; a humilhação atendia pelo nome de "bandeira", quando a dupla derrotada não pontuava. 

E, na gíria pitoresca do lugarejo, o "pé no bucho" era a sentença para quem perdia quatro rodadas consecutivas sem interromper a glória alheia.

A trajetória de Manoel Vermelho foi marcada por episódios que, narrados pelo excelso historiador Celestino Alves, ganham contornos de lenda. Em um momento de busca por novos horizontes, tentou a sorte na migração para o Sul. 

Diante de um "pau de arara" o transporte precário da época, percebeu a superlotação sem acomodações. Com a sabedoria prática dos homens da terra, desistiu de imediato, descendo por um lado enquanto sua mala descia pelo outro, abortando a viagem antes mesmo que ela começasse, recebendo o insulto de 'Arara arrependida'. A galhofa dos demais foi inevitável. 

Outro capítulo notável, registrado com algazarra por Celestino Alves, deu-se nos idos de 1950, durante uma vaquejada em Currais Novos. O magnata das comunicações, Assis Chateaubriand, dono dos Diários Associados, Senador e fundador do MASP, encantou-se com a figura rústica e autêntica de Manoel. 

Chateaubriand perseguiu o vaqueiro com promessas de emprego e uma vida nova no Rio de Janeiro. Manoel, contudo, desconfiou de tamanha generosidade e, duvidando da virilidade e das intenções do homem que trouxe a televisão ao Brasil, recusou a oferta, preferindo a segurança de seu gado e a liberdade de seu sertão.

A história do Seridó, entretanto, não se tece apenas com a fibra de seus vaqueiros, mas também com fios de uma herança distante. Em oportuno registro, evocamos as reflexões do Padre João Medeiros Filho, erudito que ilumina o debate sobre a influência holandesa na região, um legado que permeia a antropologia, a economia e a própria língua do povo seridoense.

Padre Medeiros destaca que a primazia da produção de queijo no Brasil, datada de 1596, deve ser atribuída aos holandeses, uma técnica que encontrou no Seridó um terreno fértil para florescer. Da mesma forma, ele rememora os delicados bordados da cidade, confeccionados por mulheres de Timbaúba dos Batistas, terra da colega Maria de Lourdes, a qual detalhou tais informações. 

Essas artesãs, em colaboração, preservam técnicas de origem flamenga, criando peças que não apenas adornam o cotidiano, mas servem como um desafio estético à aridez dos longos períodos de estiagem.

A influência dos Países Baixos (1630–1654) sobreviveu à brevidade do domínio político, infiltrando-se no léxico nordestino. Padre João Medeiros Filho aponta curiosas etimologias e apropriações que, por vias diretas ou indiretas, moldaram o falar do sertanejo - : Utilizado frequentemente como confirmação ("sim"), ecoando o uso análogo no idioma holandês. Moleque: O termo, por vezes pejorativo, é associado por alguns estudiosos a Moloch, numa possível referência depreciativa, embora a etimologia exata permaneça em debate. Bexiga: Usado como xingamento, pode ter raiz em Bescheten (sujo de fezes). Farofa: Acredita-se ter conexão com VeroffTora: No sentido de pedaço de madeira, pode derivar de termos técnicos de construção como Toren (torre) ou door (porta), somando-se à raiz latina. Alfenim: O doce alvo e delicado guarda parentesco com o Alfenid ou Alfena europeu. Encarnado: O vermelho vivo, tão presente na descrição da pele de Manoel Vermelho sob o sol, encontra equivalente no holandês.

Manoel Vermelho, com seu olhar perspicaz e vocabulário peculiar, onde figuravam palavras como "aprecatas" (alpercatas), "encarnado", além do uso corriqueiro de todas essas palavras no seu dia a dia, bem como outras que foge até o nosso entendimento, era, talvez sem o saber, um guardião vivo dessas camadas de história. 

Embora a maior parte do léxico holandês não tenha perdurado diante da vigorosa cultura luso-brasileira, ele resiste em antropônimos, topônimos (como Recife) e, sutilmente, no falar e no viver do povo do Seridó. Para nós, Manoel Vermelho é remanescente flamengo por suas características tanto físicas, quanto cultural e espiritual. 

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