SEU BASTO LEITE
Sebastião Alves da Silva — Seu Basto Leite — nasceu em 1924. Pelo menos é o que a família sabe. O registro diz 1925, em Parelhas ou Equador, com sobrenome diferente do que a família carregava. A explicação é simples e revela muito sobre o tempo: para escapar do recrutamento da Segunda Guerra Mundial, ele e outros como Chico Leite declararam-se nascidos em 1925, saindo fora das classes convocadas de 1923 e 1924. O sobrenome Leite, heranças do avô, foram trocados pelo genérico Silva, invisível o suficiente para não chamar atenção. No sertão daquele tempo, identidade era ferramenta de sobrevivência. Você usava o nome que precisava usar para não ser mandado para uma guerra em terra estrangeira. Seu Basto Leite fez o que qualquer homem razoável faria e o genealogista que vier depois precisa saber disso para entender por que o documento diz uma coisa e a memória oral diz outra. Tenório cresceu com o algodão. O ouro branco que trouxe homens para encher usinas de beneficiamento, e permitir a compra de casas urbanas. Foi o suor do algodão que transformou sítio em cidade — devagar, com a cadência do Sertão do Seridó, mas sem parar. A água era a batalha mais árdua. Antes da infraestrutura chegar, sobrevivia-se das cacimbas, buracos escavados no leito seco do rio, guardados com a ferocidade de quem sabe que aquela água é a diferença entre viver e não viver. As mulheres saíam de madrugada com latas na cabeça, caminhando no escuro para chegar antes dos outros, para evitar o conflito com os donos dos buracos que não abriam mão de nenhuma gota. E no meio de tudo isso, Antônio Quintino de Melo, o sogro de Basto Leite, plantou uma castanhola em frente a casa da Rua José Gonçalves. Cavou o buraco, colocou a muda, regou com a água disputada. A castanhola plantada pelo homem de 1899 que acreditou que plantar árvore na pedra não era loucura, era fé com raiz que cedo ou tarde acharia o barro. Sua filha Vitória, que é historiadora e servidora do Museu do Sertanejo em Acari, lembrou que o seu pai Basto Leite completaria cento e dois anos. A historiadora que guarda a memória dessas famílias com o cuidado de quem sabe que memória é responsabilidade, não hobby. Homem simples. Educado. Um pé de valsa inesquecível, daqueles que fazem a dança parecer fácil mesmo quando não é, que carregam o par com leveza e firmeza ao mesmo tempo. Um autêntico bacurau, daqueles que entende que política não é entretenimento, é destino coletivo. E apaixonado pelo Botafogo — e como não ser, se alcançou o Garrincha jogar, uma escolha por algo que vai além da razão. A saudade é imensa — Vitórinha sabe disso melhor do que ninguém. Mas há um conforto que a fé do Sertão do Seridó oferece e que a razão não consegue refutar, pois ele não está sozinho. Está ao lado da esposa Geralda Melo. Está também ao lado de Lucas Gabriel, o neto querido que partiu precisamente para os braços de Deus. Três anjos que cuidam de cima. A saudade que fica embaixo é grande. Mas a castanhola que o avô plantou ainda dá sombra na lembrança. E a história que Vitórinha conta ainda guarda os três vivos, para que as próximas gerações saibam de onde vieram e o que custou chegar até aqui.

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