SEU BILÉ

  




Sobre Manoel José Fernandes, que recebe a alcunha de “Bilé”, nasceu em 3 de outubro de 1910, no município de Taperoá, no vizinho Estado da Paraíba. 

O apelido “Bilé” surgiu de forma afetiva na infância, quando sua irmã mais velha, Maria Elita, nascida em 1909, chamava-o de “bebê Bié”, expressão infantil que, com o tempo, consolidou-se como o nome pelo qual seria amplamente conhecido e estimado em sua comunidade.

O nascimento de Bilé no solo paraibano decorreu de um contratempo na trajetória profissional de seu pai, então Fiscal de Consumo do Estado do Rio Grande do Norte. Por motivos de ordem política, Antônio Bezerra foi compelido a pedir demissão do cargo, o que levou a família a transferir-se para Taperoá.

Na nova cidade, buscou restabelecer a estabilidade doméstica e financeira mediante o trabalho, associando-se ao primo Francisco Bezerra de Araújo Galvão (1874–1970), proprietário de uma casa comercial no ramo de tecidos e, iniciava-se, assim, uma nova etapa em sua vida, marcada pelo labor constante e pela dedicação ao sustento e ao bem-estar dos seus.

Em 1914, a família retornou ao Rio Grande do Norte, fixando-se em Jardim do Seridó, terra natal de Antônio Bezerra e, lá, ele passou a dedicar-se à agricultura na Fazenda Touro, pertencente à matriarca Maria Rozalina de Araújo Fernandes (1847–1929), sua mãe, irmã do coronel Silvino Bezerra de Araújo (1836–1921). A propriedade situava-se cerca de um quilômetro da sede municipal.

Cinco anos depois, em 1919, quando Bilé contava apenas nove anos, a família mudou-se para Acari, estabelecendo-se na Fazenda Acauã, de propriedade de Félix Eufrásio de Araújo (1899–1979), genealogista empírico, irmão de dona Cândida, esposa de Antônio Bezerra. 

Nesse mesmo ano, teve início a construção da nova rodagem com destino a Natal, ocasião em que Antônio Bezerra aproveitou a oportunidade para erguer um barracão destinado à venda de gêneros alimentícios, empreendimento que lhe trouxe apreciáveis lucros e contribuiu para o restabelecimento financeiro da família.

Em 1920, os pais de Bilé adquiriram, em Acari, uma loja de tecidos pertencente ao senhor Raul Pontes, ainda criança, então com dez anos, já auxiliava os pais nas atividades comerciais e quatro anos mais tarde, em 1924, a loja foi vendida e substituída por um estabelecimento de maior porte, de propriedade de Antônio Basílio, então prefeito municipal. 

O novo estabelecimento comercial, situado à Praça Coronel Silvino Bezerra, nº 46, passou a ser diretamente administrado por Bilé, com apenas quatorze anos de idade. Permaneceu à frente dos negócios até 1965, ocasião em que cedeu o ponto ao senhor Onessino Onésio da Silva (1924-2016). 

Figurou Onessino Onésio como preeminente comerciante e Vice-Prefeito de Acari no interregno de 1977 a 1982, havendo assumido as rédeas do Executivo em reiteradas ocasiões. Era ele sobrinho de Sebastião — conhecido como 'Sebastião da Viúva' —, do Saco dos Pereiras. 

Cumpre registrar, por oportuno, que a genitora do dito Sebastião, a senhora Chiquinha Viúva, fora a responsável pelos desvelos dispensados ao célebre aviador Major Hortêncio de Brito, a quem acolhera na mais tenra idade para tratá-lo das moléstias que o afligiam."

Destarte, os estudos iniciais de Bilé foram realizados no Grupo Escolar Tomaz de Araújo, onde concluiu o curso primário, equivalente ao atual ensino fundamental. Posteriormente, frequentou o Externato Spencer, instituição de prestígio organizada e dirigida pelo doutor Francisco Menezes, promotor da comarca e reconhecido educador da época.

Em 14 de novembro de 1934, contraiu núpcias com Maria do Carmo Galvão (1914–1985), filha de Francisco Braz de Albuquerque Galvão e de Izabel Bezerra de Araújo. Deste enlace adveio uma única filha biológica, Maria Izabel Fernandes de Medeiros (1938–2024), tendo o casal, não obstante, adotado outras crianças, mormente oriundas da parentela.

Maria Izabel, por sua vez, uniu-se em matrimônio ao engenheiro agrônomo Dr. Pedro Pires Gonçalves de Medeiros (1922–1975), então chefe da Estação Experimental de Cruzeta. Deste consórcio resultaram nove filhos: Natália Bertina, Mário Manoel, Maria Cândida, José Gentil, Ana Amélia, Antônio Carlos, Porfíria, Izabel Cristina e Pedro Pires Filho.

Durante o governo do interventor general Fernandes Dantas, em 1º de dezembro de 1944, Bilé fora nomeado prefeito de Acari. Sua administração destacou-se pelo zelo com a educação, pela conservação das estradas e prédios públicos e pela atenção à limpeza urbana.

Ao término do governo do interventor, apresentou seu pedido de exoneração, em gesto de solidariedade política, sendo sucedido por Sérvulo Pereira de Araújo, em 1948.

Em 1954, o médico Paulo Pires Gonçalves de Medeiros, irmão do agrônomo Pedro Pires acima citado, foi eleito prefeito de Acari, tendo Bilé postulado e figurado como vice-prefeito. Durante esse mandato, ele acumulou também as funções de presidente da Câmara Municipal. Foi justamente nesse período que se emanciparam os municípios de Cruzeta, representado por Joaquim Lopes Pequeno (“Baé”) e Carnaúba dos Dantas, representado por João Cândido Filho.

Em 26 de outubro de 1958, Bilé representou oficialmente o prefeito de Acari na inauguração do Açude Público Marechal Dutra, o Gargalheiras, na ocasião, foi servido um churrasco de confraternização aos trabalhadores que participaram da construção, obra executada sob a direção do Exército Brasileiro e a supervisão do major engenheiro Ari de Pinho que chegou a ganhar nome de bairro em Acari.

Encerrada essa fase de vida pública, afastou-se das disputas eleitorais, dedicando-se integralmente às atividades rurais e à pecuária.

Com o tempo, tornou-se proprietário das fazendas Riacho da Serra e Tigre, ambas posteriormente vendidas ao comerciante Antônio Maria, de Currais Novos, em 1985 e da Fazenda Benedito, que doou à sua filha, Maria Izabel Fernandes de Medeiros. 

Durante muitos anos, exerceu a função de representante correspondente do Banco do Brasil em Acari e integrou a Loja Maçônica Fraternidade e Justiça III desde sua fundação, em 17 de janeiro de 1971, sendo um de seus membros mais respeitados.

Homem de vida ativa e espírito comunitário, ele também agiu no cenário social e esportivo do município, tendo sido atleta do antigo Sport Club Acaryense, fundado em 1934, atuando ao lado de nomes expressivos do esporte local, como Aristíclo,  célebre goleiro que mais tarde jogaria pelo São Paulo, Júlio Alves, os irmãos Chico Seráfico e Zé Vinício Dantas, Arcídio Pires (“Guincha”), Bibiano, Zé Moleque, Luiz Cândido, Pires, Zé Batista, Zé Artur (“Sô”), João Bosco, Zé Nunes, Severo Fernandes, Pedro Celestino, entre outros.

Além do desporto, notável foi sua atuação como líder comunitário e incentivador da juventude, engajando-se em movimentos escoteiros, oratórios e atividades de cunho social e religioso.

Participou ativamente das festividades de Nossa Senhora da Guia, padroeira de Acari, e teve presença constante nas celebrações que marcavam a vida cultural e espiritual da cidade.

Do seu segundo convívio marital com Maria Martha de Araújo (1937-, mulher admirada por sua paciência e rara beleza, deixando os únicos filhos biológicos homens Fernando e Marcos, além da filha Farah Indira. 

Manoel José Fernandes faleceu em 1993, deixando um legado de trabalho, honradez e dedicação à família e à terra seridoense. Sua memória permanece viva no seio da comunidade acariense, como exemplo de homem público íntegro, empreendedor e profundamente comprometido com o desenvolvimento de sua gente.

 

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