FRANCISCO DE ASSIS CUNHA (1944-2024)
Neto de Eneias Pires Galvão e de Maria Cândida de Araújo, teve sua infância marcada por circunstâncias delicadas decorrentes das enfermidades de sua mãe, Maria do Carmo Pires Galvão (1914–1983). Em razão disso, foi acolhido, cuidado e criado por seus parentes Manoel José Fernandes (1910–1993) e sua esposa, Maria do Carmo Galvão, sob cuja tutela recebeu educação pautada no afeto, na dedicação e no zelo. No contexto mais amplo da memória cultural e da identidade local, insere-se a experiência coletiva vivenciada na cidade de Acari, cuja expressão mais significativa se manifesta na tradicional Festa de Agosto. Tal celebração configura-se como um dos principais marcos simbólicos da identidade acariense, sendo profundamente associada ao sentimento de inclusão daqueles que se reconhecem como “filhos do Acari”. Nesse sentido, a memória assume caráter estruturante, convertendo-se em elemento indissociável da identidade, como se o ato de recordar constituísse não apenas uma faculdade, mas um imperativo inerente à condição de nativo.
A Festa de Agosto, concebida como patrimônio afetivo e cultural da comunidade, ultrapassa a dimensão de evento festivo para afirmar-se como espaço de reafirmação coletiva. Nela, observa-se um movimento cíclico de retorno às origens, por meio do qual indivíduos que se encontram afastados geograficamente reencontram, ao regressar, não apenas o lugar, mas também a si próprios. Tal retorno é frequentemente descrito como uma espécie de rejuvenescimento simbólico, no qual o adulto revive a infância, libertando-se das convenções da vida madura e retomando a espontaneidade e a leveza outrora experimentadas.
A estrutura da festividade ancora-se, de maneira indissociável, na tradição religiosa católica, sendo o novenário realizado em frente à igreja matriz o eixo central das práticas devocionais. Os sinos, os cânticos litúrgicos, o hino da padroeira e a presença do altar compõem o cenário sagrado que fundamenta e legitima a celebração. Ao lado desses elementos, desenvolve-se a dimensão profana da festa, caracterizada pela convivência social, pelas manifestações musicais e pelas expressões de alegria coletiva, em um equilíbrio que reflete a própria complexidade da cultura local.
A atmosfera da Festa de Agosto revela-se intensamente sensorial, sendo evocada por meio de sons, imagens e experiências compartilhadas. O repicar dos sinos, a execução da banda de música, os foguetões e as girândolas que iluminam o céu, bem como o brilho do luar sobre a cidade, compõem um quadro vívido e marcante. A movimentação pelas ruas, o encontro nos espaços festivos e a participação ativa da comunidade contribuem para a construção de uma experiência que se inscreve de forma duradoura na memória individual e coletiva.
Dessa forma, a Festa de Agosto em Acari não se limita a um acontecimento periódico, mas configura-se como um verdadeiro fenômeno de reafirmação identitária. A convergência entre o sagrado e o profano estabelece um espaço-tempo singular, no qual se entrelaçam fé, tradição, convivência e memória. Nesse cenário, a imagem do menino descalço, que corre livremente pelas ruas ao som da banda, emerge como símbolo da alegria genuína e da liberdade, sintetizando o espírito da celebração e consolidando Acari como território privilegiado de pertencimento, recordação e reencontro emocional.
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