GENTIL FERREIRA DA SILVA (1912/1989)

  nasceu no Sítio Cruzeta, à época pertencente ao distrito do município de Acari, no Rio Grande do Norte. Filho de Basílio Ferreira da Silva (1867–1950) e de Isabel Maria da Conceição, e neto paterno de Vicente Ferreira da Silva (1812–1902) e Josefa Maria da Conceição (1818–1902).

Viveu sua juventude e início da vida adulta, do final da década de 1920 até o término dos anos 1940, na Fazenda Garrotes, propriedade de seu genitor.

Contraiu matrimônio com Inês Amerinda, filha de Agostinho Cassiano Pereira (1896–1984) e de Anna Maria de Santana. Desta união floresceu uma numerosa prole composta por Maria, Marcelino, Mário, Manoel Basílio, Marivalda, Marinês e Genilson, aos quais se somou a caçula adotiva, Jória, proveniente da família Cananéia da Acauã.

No tocante ao patrimônio fundiário, Gentil possuiu uma gleba de terra encravada na comunidade Saco dos Pereira. Todavia, seguindo o destino de sua herança na Fazenda Garrotes, alienou suas propriedades ao clã dos Bezerras, família que, à época, expandia seus domínios através da aquisição sucessiva de parcelas de terra na região.

Desprovido de suas terras, Gentil dedicou sua força de trabalho a dois dos maiores empreendimentos econômicos e infraestruturais do Seridó: a construção do monumental Açude Gargalheiras e a operação na usina de algodão do grupo Nóbrega e Dantas. Foi nestes ambientes, operando máquinas pesadas entre o final da década de 1950 e durante a década de 1960, que sua saúde foi severamente comprometida.

Submetido a uma exposição contínua a níveis de ruído excessivos muito acima do limite de tolerância de 85 decibéis, Gentil foi vítima da Perda Auditiva Induzida por Ruído (PAIR). 

É imperativo notar que sua trajetória laboral transcorreu em um período histórico onde a fiscalização era precária e os direitos trabalhistas, muitas vezes, negligenciados. 

Não lhe foram fornecidos Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), tampouco houve o reconhecimento da insalubridade, a concessão de estabilidade ou a aposentadoria especial, direitos que, em tempos posteriores, seriam garantidos a trabalhadores em condições análogas. 

O resultado desta negligência patronal e estatal foi a surdez progressiva e irreversível, que lhe trouxe não apenas o isolamento comunicativo, mas também outras sequelas  típicas da condição.

No crepúsculo de sua existência, já imerso em um mundo de silêncio e memórias, Gentil retornou à simplicidade do campo. Dedicava-se a um pequeno roçado e vazante no Saco dos Pereira, em terras cedidas por seu cunhado, Manoel Vermelho. 

A imagem que perdura na memória familiar é a de um homem resiliente que, diariamente, percorria nove quilômetros tangendo seu jumentinho, de nome "Cambraia". 

Nessas jornadas, fazia-se acompanhar sempre de Jória, sua filha caçula e protegida, a quem defendia com zelo excessivo, não permitindo que sequer os netos a importunassem. Assim viveu Gentil, entre o barulho das máquinas que lhe roubaram a audição e o silêncio do sertão que lhe acolheu no fim da vida.

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