ANTÔNIO PEDRO DANTAS FILHO (1917 - 2014)

  Sob a guarda da memória de Antônio Pedro Dantas Filho (1917–2014), único herdeiro musical e filho do maestro, descortina-se a monumental trajetória de Felinto Lúcio Dantas

Em um registro histórico baseado em entrevistas e documentos, Antônio Pedro sintetiza a vida, a obra e a personalidade de seu pai, revelando ao mundo um gênio autodidata forjado no árido e poético cenário do Seridó potiguar.


Natural de Carnaúba dos Dantas, município historicamente vocacionado à pecuária, Felinto vivenciou uma infância humilde, dividida entre os banhos de açude e o árduo labor na lavoura. A sua alfabetização constitui um capítulo singular de perseverança e aos 13 anos, ainda analfabeto, firmou um pacto com a única pessoa letrada da localidade. 

O método de pagamento era o suor de seu trabalho; para cada letra do alfabeto desenhada na areia do rio, seu "quadro negro" improvisado, o menino retribuía transportando três baldes de areia para o preparo da vazante. Como ele próprio definiria mais tarde: "a natureza foi a sua escola e a pá, sua professora".

A iniciação musical ocorreu em 1915, sob a tutela do primo Pedro Arbués Dantas. Inicialmente, Felinto exercitou seu talento em um clarinete artesanal, fabricado em madeira de pereiro com chaves de latão, instrumento rústico e de afinação imprecisa. 

Mas o verdadeiro ponto de inflexão deu-se em 1917, ao ouvir a valsa Royal Cinema, composta por seu primo Tonca Dantas. O impacto estético foi tamanho que o impulsionou a compor sua primeira peça, o dobrado Estreia. Três anos depois, em 1920, já empunhava a batuta como maestro da banda de Acari.

O aspecto mais fascinante de sua trajetória, entretanto, reside no seu processo de composição, descrito pelo Bispo Dom José Adelino Dantas como um "prodígio raríssimo" e um "processo misterioso". Felinto não necessitava de instrumentos para criar. 

Sua rotina iniciava-se na madrugada, por volta das 3h30. Após um café frugal, ele percorria cerca de sete quilômetros a pé até o roçado. Durante essa caminhada na escuridão, realizava um "monólogo sonoro", concebendo, harmonizando e orquestrando melodias inteiramente em sua mente. 

Ao chegar ao Rio Carnaúba, sentava-se na areia, tal qual fizera para aprender a ler e registrava mentalmente a "solfa sonora". Ao retornar para casa, transcrevia a obra completa para o papel com uma caligrafia musical descrita como primorosa, miúda e equilibrada, dispensando o uso de piano ou harmônio para prova dos acordes.

A genialidade de Felinto Lúcio Dantas manifesta-se na complexidade técnica de suas partituras. Dom Adelino destaca seu domínio sobre a "sétima diminuta", um acorde de difícil execução e sonoridade tensa, que o maestro empregava com maestria. 

Seu repertório é vasto e diversificado, abrangendo desde a valsa Culpa e Perdão inspirada em obra literária até a aclamada Teresa Maia, dedicada à esposa do governador Tarcísio Maia. Esta última é considerada superior, em riqueza harmônica, à própria Royal Cinema que o inspirara outrora.

Após explorar gêneros como dobrados, maxixes e schottisches, Felinto voltou-se para a música sacra. Sua produção neste campo inclui inúmeras ladainhas, treze ofícios de Nossa Senhora e diversas missas, como a Missa de Santa Cecília e a Missa de Nossa Senhora da Guia, consolidando sua fé através da arte.

Apesar da magnitude de sua obra, Felinto manteve-se fiel à sua essência sertaneja até o fim da vida. Autodefinido como um "homem da terra", manteve sua rotina na lavoura até os 82 anos. 

Sua personalidade era marcada por uma humildade que beirava a excentricidade; frequentemente autodepreciativo, referia-se a si mesmo como "um trapo humano", recusando-se a ouvir suas próprias músicas a menos que executadas por bandas de excelência. Nunca compôs por dinheiro, movido apenas por uma inspiração que ele dizia vir "do ar".

O reconhecimento nacional, embora tardio, chegou em 1974 através do Mobral (Movimento Brasileiro de Alfabetização), que promoveu a gravação de suas partituras no Rio de Janeiro, imortalizando o legado daquele que Dom Adelino descreveu como "o melhor dos homens, o mais delicado e fino", um gênio capaz de traduzir os mistérios sonoros do sertão em harmonias eternas.

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