SEU GENTIL DO CINEMA
A infância de Seu Gentil foi marcada pelo trabalho precoce e pela dureza dos períodos de estiagem. Em 1942, ainda menino, acompanhava o pai nos serviços de construção de estradas, atividade que desempenhava desde cerca de 12 anos de idade. Demonstrava desde cedo forte espírito empreendedor: carregava água de um cacimbão para vendê-la às famílias que possuíam caixas d’água, gerando assim sua primeira renda. O vínculo com a Mina Brejuí, onde seu pai trabalhava, consolidou-se também na adolescência, tornando-se ele próprio funcionário oficial do local a partir de 1953.
Aos 18 anos, contrariando o desejo paterno de que seguisse a vida religiosa, José Gentil ingressou na Marinha do Brasil, em 1949. Ali permaneceu até 1953, período de grande aprendizado e experiências marcantes — inclusive a promessa de uma “viagem do outro mundo”, oportunidade que recusou para retornar a Currais Novos e rever a família. Essa decisão, aparentemente simples, determinaria o rumo de toda a sua vida.
Seu retorno coincidiu com o início de sua relação definitiva com o cinema. O proprietário da Mina Brejuí, conhecido como Dr. Tomás, lamentando sua saída da empresa, convidou-o a assumir novas responsabilidades, entre elas a gestão de um cinema que estava sendo implantado pela família Salustiano para oferecer diversão à juventude local. “Quero que você tome conta de tudo”, teria dito o empresário, anunciando também que ele precisaria aprender o ofício cinematográfico. Assim, em 1953, seu Gentil passou a administrar o Cine-Teatro Desembargador Tomás Salustino, conciliando o trabalho diurno na mina com as atividades noturnas na sala de projeção.
Com o tempo, aprofundou sua dedicação ao cinema, chegando a investir recursos próprios para aprimorar o funcionamento do empreendimento. Viajou a Recife, onde adquiriu duas máquinas de projeção de 16 mm. O acordo era simples: ele arcava com os custos iniciais e, ao final de cada mês, apresentava as contas para acerto com o proprietário. Sua atuação multifuncional definia o ritmo da casa: além de gerente, era operador de filmes — “lá em cima”, na cabine de projeção — enquanto um compadre auxiliava na bilheteria. O cinema tornou-se, então, o grande cenário da vida noturna currais-novense, ponto de encontro de famílias, namoros, expectativas e descobertas culturais.
Com a chegada da televisão, entretanto, iniciou-se um processo irreversível de declínio do público. O documento registra que o novo meio “afastou as pessoas do cinema”, modificando de forma profunda o hábito da comunidade. Sem sustentação comercial, o Cine-Teatro encerrou suas atividades, e Seu Gentil acabou vendendo o equipamento para um homem identificado como Benedito, ou “Benê”, que já possuía uma máquina de 35 mm.
Mesmo após o fim da era do cinema, Seu Gentil manteve-se ativo profissionalmente por muitas décadas, aposentando-se apenas aos 87 anos, um ano antes da gravação do documentário que registra sua história. Aos 88, vivendo próximo da família, é amplamente reverenciado como um personagem fundamental para a memória cultural de Currais Novos. Sua vida representa o testemunho vivo de um tempo em que o cinema, mais do que entretenimento, era um evento coletivo, um ritual de encontro e pertencimento. A figura de “Seu Gentil do Cinema” permanece, assim, como símbolo de dedicação, trabalho e da alegria que proporcionou a toda uma comunidade.

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