Bel. MAURÍLIO PINTO DE MEDEIROS (1941/2018)
Bel. Maurílio Pinto de Medeiros nasceu em Acari, em 1941, e faleceu em Natal, em 2018, deixando marcada na memória potiguar a figura de um dos mais notáveis homens da segurança pública do Rio Grande do Norte.
Filho de Bento Manoel de Medeiros (1911–1991), coronel da Polícia Militar conhecido como “Caçador de Bandidos”, e de Julieta Pinto de Medeiros (1918–2013), era irmão de Milton Pinto de Medeiros (1942–2008). Pelo lado paterno, era neto de Manoel Martins de Melo (1871–1926) e de Francisca Maria da Conceição (n. 1871); pelo lado materno, descendia de José Pinto de Aguiar (1874–1937) e de Josefa Minervina Rocha. Era ainda sobrinho de Manoel Rosendo de Medeiros (1903–1986) e de Manoel Pacífico de Medeiros (n. 1905), figuras conhecidas da região do Gargalheiras, em Acari.
Maurílio ingressou cedo na vida pública. Filho de policial, acompanhou desde a juventude o ambiente das corporações e, aos dezesseis anos, já trabalhava como motorista de viatura na cidade de Patu.
Em 1º de julho de 1964, ano em que começou oficialmente sua carreira, passou a integrar a Polícia Civil, iniciando uma trajetória que atravessaria quase meio século.
Paralelamente, concluiu o curso de Jornalismo em 1975, na antiga Faculdade Eloy de Souza, instituição ligada à Fundação José Augusto, situada nas alamedas do Tirol. Formou-se também em Direito, o que ampliou sua compreensão jurídica e reforçou a competência técnica que marcaria sua atuação.
Embora bacharel em Jornalismo, não exerceu a profissão nas redações, pois esteve quase sempre diante de câmeras e microfones, concedendo e conduzindo entrevistas, graças à centralidade de seu trabalho no cotidiano policial potiguar.
Seu gabinete, segundo relatos da época, parecia menos o centro de comando do homem mais poderoso da polícia e mais uma caixa de assistência social, tendo em vista dezenas de pessoas buscavam conselhos, denunciavam vizinhos, pediam auxílio ou apenas desabafavam dramas domésticos.
Era comum encontrar, no ambiente ruidoso, galos de campina em gaiolas e o ir e vir de gente simples, todos confiantes no equilíbrio de um delegado que, apesar da autoridade incontestável, recusava presentes e mantinha conduta ilibada, sempre vestido com seu inconfundível conjunto bege.
A figura de Maurílio Pinto, austera e de poucas palavras, tornou-se lendária no Rio Grande do Norte. Inteligência arguta, instinto investigativo apurado e um método que mesclava talento natural com o legado herdado de seu pai tornaram-no referência obrigatória na história policial do Estado.
Crianças travessas eram advertidas com o brado materno: “Se aquieta, Tonzinho, ou chamo Dr. Maurílio para lhe ajeitar”, e a simples menção ao seu nome bastava para restaurar o comportamento exemplar.
Entre suas ações célebres está o episódio de um assalto a banco na Avenida Rio Branco, quando bandidos cariocas, após levarem o dinheiro, refugiaram-se num hotel da Ladeira do Sol. A desconfiança do recepcionista levou ao telefonema que resultou na prisão dos assaltantes, capturados por Maurílio portando apenas um revólver calibre .38, registro que estampou as capas dos jornais da época.
Naquele tempo, o jornal impresso traduzia a crônica policial em narrativas densas, sem sensacionalismo, mas com vigor descritivo, uma vez que os crimes bárbaros anunciavam que Natal deixava de ser a antiga província tranquila, e Maurílio era o homem silencioso que rastreava pistas, desvendava homicídios e conhecia os criminosos tanto pelos métodos quanto pela intuição.
Foi também durante suas investigações que se destacaram casos de grande repercussão.
Em 1982, participou da apuração do assassinato do médico Ovídio Fernandes, que mobilizou intensamente a crônica policial. No ano seguinte, atuou nas prisões dos pistoleiros do chamado “Sindicato do Crime”, entre São Miguel (RN) e Pereiro (CE), cujo comando era atribuído ao fazendeiro Mardônio Diógenes.
Em 2011, declarou aos jornalistas Thyago Macedo e Sérgio Costa que o criminoso mais perigoso que atuara no Estado fora o pistoleiro cearense Edmar Nunes Leitão, o “Antônio Letreiro”, famoso por “escrever o nome à bala”.
Acrescentou que Idelfonso Maia Cunha, o “Mainha”, certamente igualmente temido, era responsável, segundo comentários da época, por mais de cem mortes, notoriedade que lhe rendeu até capa da revista IstoÉ.
Após participação em um curso no Texas, nos Estados Unidos, recebeu o título de Xerife, alcunha que adotou e pela qual se tornou amplamente conhecido entre colegas, imprensa e população.
Em 47 anos dedicados à Polícia Civil, chefiou a corporação por cerca de vinte e um anos, comandou a Delegacia Especializada em Capturas e Polinter (DECAP) e coordenou a Central de Inteligência da Secretaria de Segurança Pública.
Foi subsecretário e secretário adjunto de Segurança Pública, exercendo funções em diferentes governos, sem distinção partidária. Seu compromisso sempre foi exclusivamente com a segurança da sociedade.
Um de seus episódios operacionais mais comentados deu-se no assalto ao Banco do Nordeste de Assú, quando ocorreu, segundo o próprio Maurílio, “a primeira perseguição aérea no Estado e talvez no Brasil, que terminou com a prisão do foragido em Belém, no Pará”.
Em sua avaliação, o êxito da carreira devia-se à dedicação absoluta ao ofício, explicada em suas próprias palavras: “Em 1964, tive dois casamentos: com minha mulher e com a polícia. Quem trabalha no que gosta produz muito mais”.
Homenageado pela Câmara Municipal de Natal, pelo Tribunal de Justiça e pela Assembleia Legislativa, Maurílio sempre afirmava ter tratado todos os casos com igual seriedade, independentemente de status social.
Jamais deixou de socorrer quem o procurasse, fosse autoridade ou pessoa simples. Mesmo após sofrer um AVC, cerca de dez anos antes da aposentadoria, manteve-se firme, sustentado pelo companheirismo de sua esposa, Dona Clarissa.
Apesar do reconhecimento popular, não obteve sucesso na política. Candidato a deputado estadual, figurou entre os suplentes, sem apoio de grupos que mais tarde o abandonariam.
Aposentou-se compulsoriamente em março de 2011, aos setenta anos, contra a própria vontade. À época, o deputado federal Felipe Maia registrou, em pronunciamento na Câmara dos Deputados, o profundo respeito do povo potiguar àquele que consagrara sua vida à luta contra a criminalidade.
Ressaltou-se que, desde 1º de julho de 1964, o “Xerife” fizera da defesa do cidadão seu compromisso maior, sendo reconhecido pela lisura, pelo rigor investigativo e pela coragem. Como observou o parlamentar: “O Xerife deixa os quadros da Polícia Civil com o sentimento de dever cumprido e nós, com o sentimento de gratidão”.
Nos anos que se seguiram à aposentadoria, Maurílio preferiu a serenidade do lar, convivia com filhos, netos e bisnetos, lia diariamente em seu escritório e recebia amigos, mantendo-se atento aos acontecimentos do cotidiano.
Conservou até o fim o hábito de ajudar quem o procurasse, traço que o acompanhou desde o início da carreira.
Figura incontornável da história policial do Rio Grande do Norte, Maurílio Pinto de Medeiros deixa um legado de coragem, honestidade e dedicação absoluta ao serviço público.
Tornou-se, com justiça, a maior referência da Polícia Civil norte-rio-grandense e permanece vivo na memória coletiva como o eterno Xerife, homem que fez o crime tremer e que jamais deixou de honrar o dever de proteger sua terra e seu povo.

Comentários
Postar um comentário