TARCÍSIO ALBERTO DANTAS
A história dos serviços cartorários em Currais Novos confunde-se, de modo indissociável, com a trajetória da família Dantas, cujo legado atravessou décadas e acompanhou profundas transformações institucionais, jurídicas e sociais no Rio Grande do Norte.
Esse percurso tem início ainda na metade do século XX, com Luiz Alberto Dantas, figura central na consolidação do serviço notarial regional, e se prolonga na atuação de seu filho, Tarcísio Alberto Dantas, cuja vida profissional se tornou sinônimo da própria história do cartório local.
A atuação de Luiz Alberto Dantas no campo cartorário começou por volta de 1955 ou 1956, na cidade de Carnaúba dos Dantas, onde exerceu a função de tabelião em uma comarca de primeira entrância. Homem meticuloso, conhecedor das rotinas administrativas e respeitado pela população, construiu ali as bases de um saber técnico que seria transmitido à geração seguinte.
Em 1964, diante da iminente aposentadoria do tabelião de Currais Novos, Manuel de Afonso Azevedo, surgiu a possibilidade de uma permuta, prática então permitida pela legislação vigente. A troca representava uma ascensão significativa, pois Currais Novos era comarca de terceira entrância, equiparada a centros regionais de maior relevância jurídica e administrativa.
A negociação foi facilitada pela relação de amizade entre os dois tabeliães, fortalecida pelas frequentes visitas de Luiz Alberto à cidade para aquisição de material de expediente, como papel e fitas de datilografia. Em junho daquele ano, a permuta foi concretizada, e Luiz Alberto transferiu-se com a família para Currais Novos, alterando definitivamente o destino profissional e pessoal de seus filhos.
Foi nesse contexto que Tarcísio Alberto Dantas passou a vivenciar, ainda na adolescência, o cotidiano do cartório. Chegou à cidade com quase treze anos de idade e logo se destacou nos estudos, demonstrando disciplina e dedicação que lhe permitiram avançar rapidamente na formação escolar.
Aos quinze anos, recebeu do pai um convite que definiria sua trajetória que era justamente trabalhar no cartório da família. Longe de ser apenas um emprego circunstancial, a função representou para Tarcísio o início de uma vocação, exercida com entusiasmo e senso de responsabilidade.
O cartório da época era uma instituição de natureza generalista, responsável simultaneamente pelo registro civil, escrituras públicas, inventários, procurações, protestos de títulos, processos cíveis, criminais e trabalhistas, além de, em determinados períodos, responder pelo cartório eleitoral. Esse amplo espectro de atribuições exigia conhecimento prático, precisão técnica e absoluto domínio das rotinas burocráticas.
O aprendizado de Tarcísio deu-se de forma gradual, começando pelas tarefas mais simples e avançando para funções de maior complexidade. Desenvolveu habilidades essenciais ao ofício tradicional, como a caligrafia cuidadosa, considerada sinal de profissionalismo, e o domínio da datilografia, indispensável à lavratura de documentos oficiais.
Sua dedicação chamou a atenção das autoridades judiciais da comarca, e, aos dezoito anos, foi submetido a uma rigorosa prova oral aplicada pelo juiz Ivan Meira Lima. Demonstrando pleno conhecimento sobre escrituras, casamentos civis, inventários e demais atos notariais, foi aprovado e nomeado tabelião substituto, assumindo responsabilidades de grande relevância ainda muito jovem.
Em determinadas ocasiões, chegou a conduzir audiências na ausência do magistrado, tamanho era o grau de confiança que lhe era atribuído.
A consolidação definitiva de sua carreira ocorreu após a aposentadoria de Luiz Alberto Dantas, em 1982. No ano seguinte, Tarcísio assumiu a titularidade do cartório, dando continuidade a um trabalho marcado pela seriedade, pela eficiência e pelo reconhecimento público.
Luiz Alberto faleceu em 1986, tranquilo por saber que o cartório permanecia sob a responsabilidade de um filho plenamente capacitado, em quem depositava total confiança moral e profissional.
Durante esse período, Tarcísio testemunhou mudanças significativas na estrutura dos serviços notariais. O crescimento econômico de Currais Novos, especialmente a partir da década de 1970, levou o Tribunal de Justiça a determinar a criação de um cartório exclusivo para protesto de títulos, iniciando um processo gradual de especialização que romperia com o modelo generalista tradicional.
As transformações intensificaram-se ao longo das décadas seguintes. A introdução de concursos públicos, realizados em 1976, 1982 e, posteriormente, em 2012, marcou a transição definitiva de um sistema baseado em nomeações e sucessões familiares para um modelo pautado no mérito técnico e na formação acadêmica.
Em 1999, outra mudança estrutural alterou profundamente o funcionamento dos cartórios: os processos criminais, trabalhistas e eleitorais foram retirados de sua esfera de atuação e transferidos para secretarias judiciais próprias, esvaziando parte significativa das atribuições que antes concentravam. O cartório, antes um núcleo multifuncional da vida cívica, passou a assumir contornos mais especializados e juridicamente regulados.
Nesse contexto de transição, destacou-se a atuação de Cleide, esposa de Tarcísio, funcionária reconhecida por sua competência técnica e pela excelência no Registro Civil. Nomeada substituta, tornou-se referência durante as correições realizadas pelo Tribunal de Justiça.
Com a reestruturação do sistema judiciário no final da década de 1990, Cleide recebeu a oportunidade de responder interinamente pelo cartório, com a condição de submeter-se a concurso público quando este fosse realizado. Contudo, o certame de 2012 trouxe novas exigências legais, impondo a obrigatoriedade do bacharelado em Direito e dois anos de prática forense.
Apesar de sua vasta experiência e reconhecimento institucional, Cleide não pôde atender aos requisitos formais e, assim, a família Dantas encerrou sua longa titularidade à frente do cartório de Currais Novos.
Paralelamente à intensa vida profissional, a trajetória de Tarcísio também se construiu no plano pessoal. Em 1972, durante uma festa de debutantes na cidade de Acari, ao som da banda natalense Os Tropicalistas, conheceu Cleide, então uma jovem de olhos verdes e postura reservada.
O encontro, marcado pela informalidade de uma dança improvisada, deu início a um relacionamento duradouro que resultaria em casamento e na formação de uma família que lhe serviria de base afetiva ao longo de toda a carreira. Seu irmão, Luiz Alberto Dantas Júnior, conhecido como Doutor Luizinho, também iniciou a vida profissional no cartório, mas seguiu vocação distinta, formando-se em Direito e construindo carreira na magistratura, com atuação na Vara da Fazenda Pública e na Corregedoria da Justiça.
A trajetória de Tarcísio Alberto Dantas, assim como a de seu pai, transcende a dimensão individual e familiar. Ela constitui um testemunho privilegiado da evolução dos serviços cartorários e da própria organização institucional brasileira.
Do tempo do bico de pena, da tinta e da datilografia manual à era das exigências acadêmicas e da normatização rigorosa, sua vida profissional acompanhou e refletiu as transformações do Estado e da sociedade.
O cartório da família Dantas foi, por décadas, guardião da fé pública em Currais Novos, registrando nascimentos, casamentos, negócios e despedidas que compõem a memória coletiva da cidade. Seu legado permanece não mais na sucessão direta, mas na história, na confiança construída e na contribuição duradoura para a vida civil da comunidade.

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